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Notícia publicada na edição de 20-04-2003 do Jornal Cruzeiro do Sul, editoria Mais Cruzeiro

Mais Cruzeiro

PESQUISA

Foto Divulgação
Foto Divulgação O professor, pesquisador e escritor Jorge Luiz Antônio e o livro originado de sua dissertação de mestrado (no destaque): no Brasil, primeira obra dedicada só ao poeta Cesário Verde
Djalma L. Benette

A paixão pela poesia - gosto que descobriu ainda na adolescência - faz de Jorge Luiz Antônio, morador de Itu, uma referência quando o assunto é colocar no foco de atenção o que é, foi e virá a ser a arte de fazer poesia. Nesta página, ele fala um pouco de sua vida e centra-se nas respostas dadas em seu livro sobre o poeta português Cesário Verde, originada de sua dissertação de Mestrado.Jorge Luiz é exemplo de quem faz o que gosta, desnudado em si próprio. Autor de livro sobre o pintor Almeida Júnior; ex-funcionário do Banco do Brasil; ex-professor de Língua Portuguesa em cursinhos e ensino médio e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, onde atualmente faz o doutorado, ele mantém na internet, aberto a quem interessar, uma homepage onde centraliza a compilação que faz da Brazilian Digital Art and Poetry on the Web (arte poética e digital do Brasil disponível na rede de computadores - http://www.vispo.com//misc/BrazilianDigitalPoetry.htm.)Leia a seguir a entrevista com o pesquisador:Cores, Forma, Luz, Movimento: A Poesia de Cesário Verde é, em forma de livro, sua tese de doutorado no programa de Comunicação e Semiótica da PUC/SP. O título indica que a obra trata da poesia (abstrato) de importante poeta português por um viés de elementos essenciais da Física (concreto), enquanto um dos campos da ciência. Esta relação transparece em sua obra?O livro é o resultado da minha dissertação de mestrado, defendida em 1999. A minha tese de doutorado está sendo escrita, e trata sobre a poesia eletrônica, e será defendida ainda este ano. Não abordo a relação da poesia com a física, mas da poesia com a pintura realista impressionista. Cores, forma, luz, movimento são termos também usados para se falar da pintura impressionista. Trata-se da verificação, na poesia de Cesário Verde, em comparação com outros poetas, da visualidade expressa em palavras poéticas, de um modo geral, e da pintura realista impressionista que transparece na poesia verbal do poeta português. Após um estudo teórico e panorâmico das relações entre Poesia e Pintura, faço aproximações entre pintura impressionista e literatura impressionista, para chegar à leitura da poesia impressionista na obra de Cesário Verde. É que a poesia de Cesário Verde apresenta muitas paisagens (urbanas e rurais) e o eu-poético também usas metáforas da pintura.Na apresentação do livro, está afirmado que ele é resultado de um estudo sobre a obra do poeta português José Joaquim Cesário Verde (1855-1886) com o objetivo de estabelecer relações com a poesia e a pintura impressionistas. Ora, como um pesquisador/autor de Itu, como é o seu caso, chega a um poeta português tão pouco divulgado entre nós e qual a essência da motivação de estabelecer uma relação entre dois gêneros de expressão (poesia e pintura) numa classificação única dos vários períodos da história da arte (impressionismo)?Há um percurso de estudos pessoais e autodidáticos antes de chegar à PUC SP e a Cesário Verde. Estudei literatura porque gosto de escrever, principalmente poesia, desde adolescente. Dentre as diversas tentativas de fazer pós-graduação, fui para Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e desenvolvi um estudo sobre a vida e a obra do pintor José Ferraz de Almeida Júnior (1850-1899), que resultou no livro Almeida Júnior através dos tempos (1983). Trabalhei no Banco do Brasil, para o qual também fui instrutor de Comunicação Administrativa por uns doze anos. Depois fui ser professor de Literatura e Redação em escolas de ensino médio. Mais estudos muito dirigidos para o ensino reducionista em colégios e cursinhos para o vestibular. Em seguida, resolvi fazer uma especialização para entender melhor a literatura. Fui para o Curso de Pós-Graduação Lato Sensu de Literatura da COGEAE da PUC SP, de 1995 a 1996. Já gostava muito da poesia de Antero de Quental e Guerra Junqueiro, da época do Cesário Verde. A escolha por autores portugueses é talvez pelo fato de eu ser neto de portugueses. Na COGEAE, dentre outras leituras, fiz estudos sobre Augusto dos Anjos e Cesário Verde. Sobre o primeiro saiu uma monografia - Ciência, Arte e Metáfora na Poesia de Augusto dos Anjos -, para o lato sensu, que estou tentando publicar, porque é muito extensa para uma revista (cerca de 40 páginas); deixei o Cesário para o mestrado, e saiu o livro. Uma das motivações para tudo isso foi o curso da COGEAE, depois o Programa de Comunicação e Semiótica, pois eles enfatizam determinados autores e certas relações comparatistas e semióticas. Na busca de um tema original para a monografia de lato sensu e para a dissertação de mestrado, as pesquisas me indicaram caminhos apontados e não desenvolvidos pelos estudiosos do assunto. No caso do Cesário Verde, foi a poesia dele que me levou a ficar centrado na poesia realista impressionista. Contudo, os capítulos A poesia-pintura e A poesia-pintura realista impressionista, nas páginas 87 a 169, tratam de outros poetas e da visualidade na poesia portuguesa. Chegar ao conceito de poesia realista impressionista, principalmente porque o impressionismo literário não é um movimento bem delimitado na literatura, ao contrário da pintura, foi um grande desafio. Isso exigiu que eu assumisse um ponto de vista e procurasse defendê-lo. Houve quem colocou dúvidas se eu obteria parecer favorável da FAPESP, mas felizmente tudo correu bem. Há poucas dissertações sobre o Cesário Verde e algumas teses de doutorado no Brasil. Os trabalhos de Maria Aparecida Paschoalin e o Ricado Gumbleton Daunt Neto me parecem os melhores. Há alguns livros dedicados somente a Cesário Verde, mas foram publicados em Portugal; no Brasil, com base nas pesquisas que fiz, o meu livro é o primeiro.Num momento em que a coisa mais prática da vida, a existência da fome, entre nós brasileiros, é recolocada no plano central das ações governamentais e noticiosas, em sua avaliação, como a poesia deve ser introduzida ao cotidiano das pessoas? Ou você acha que a poesia não deve fazer parte da vida? Ou porque ela deve? Enfim, qual é o papel da linguagem, em particular a poética, num cotidiano como o nosso de privilegiados, mas também de miseráveis excluídos?Poesia e vida prática, poesia e fome, cotidianismo - você está apresentando um novo tema para futura tese e livro. A poesia pode ser introduzida no cotidiano, com fome ou sem, para os pobres e para os ricos, para os privilegiados que fazem um curso de pós-graduação, para aqueles que não conseguiram concluir o ensino fundamental. As regiões Norte e Nordeste do Brasil são exemplos disso: há poesia até na entonação musical da fala do nosso povo. É uma poesia oral que circula e dá um toque especial. Acho que isso está um pouco esquecido no Sudeste, mas existe no Centro-Oeste e no Sul (a poesia dos pampas). O meu livro não tem por objetivo introduzir a poesia no cotidiano, pois não foi esse o meu objeto de pesquisa durante o mestrado. Nem Carlos Felipe Moisés, em Poesia não é difícil: introdução à análise de texto poético conseguiu isso. Se eu escolhesse esse enfoque, trabalharia com a poesia de Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, ou João Cabral de Melo Neto, e faria alguma apresentações em locais públicos, nas rádios, na televisão, para estudar a reação do público e, talvez, restabelecer um novo gênero de apresentação, o poético. Ou eu adotaria um estudo teórico-prático com base no livro A poesia da canção, de Joaquim Aguiar. Também, poderia fazer uma leitura brasileira do Como fazer versos, de V. Maiakóvski. Hayakawa, em A linguagem no pensamento e na ação, traz uma afirmação que está bem adequada à sua pergunta e à minha resposta: Nunca se reconheceu devidamente o fato de que a gíria e a linguagem vulgar tentam persuadir exatamente segundo os mesmos princípios usados na poesia. Utilizam, com freqüência, a metáfora e o símile. Ex.: Por a mão no fogo por alguém, estar claro como o dia, estar num beco sem saída (...). O processo imaginativo pelo qual se inventam frases como estas é o mesmo pelo qual os poetas chegam à poesia. Por esse ângulo, a poesia pode ser introduzida no cotidiano das pessoas. Melhor dizendo, ele já é parte integrante desse cotidiano, mesmo que essas pessoas, alfabetizadas ou não, nem sequer saibam conceituá-la. As letras das músicas populares são poesias que se incorporam ao cotidiano das pessoas, com a vantagem de ter a sonoridade materializada em lindas canções. Há uma relação entre poesia e vida cotidiana na letra Para não dizer que não falei das flores e Mais luz, de Antero de Quental. Vou citar um exemplo. Estou fazendo a resenha do livro Tecno-Poesia e realtà virtuali, de Caterina Davinio, da Itália. Dentre as subclassificações de tecno-poesia, ela apresentou performance e performers. Como é um livro que documenta a tecno-poesia internacional, não encontrei nenhum brasileiro nessa categoria. Não foi falha de pesquisa dela, não, porque em todas as outras categorias há brasileiros, como Arnaldo Antunes (videopoesia), Eduardo Kac (holopoesia), Augusto de Campos (poesia digital), etc. É que não há uma tradição de leitura de poesias no Brasil, depois do começo do século (Modernismo, se não me falha a memória). Há um site português - Poetas e Pintores Surrealistas -, organizado por José António Chagas Machado (http://jacm.net/surrealismo/) , que oferece leitura das poesias selecionadas, e esse material é parte de programas radiofônicos. Quando Christopher Funkhouser, professor do New Jersey Institute of Techonology, EUA, esteve no Brasil, apresentou performances com poesia cibertextual e com auxílio de um computador e um professor multimídia. E se tratava de poesia pós-estrutural. Acompanhei-o em três apresentações (Instituto de Artes da Unesp São Paulo, Faculdade de Comunicação e Artes do Corpo da PUC SP e Centro de Pesquisa em Cibercultura da Faculdade Senac de Comunicação e Artes). E foi uma surpresa mesmo no meio universitário. E as poesias sonora e performática foi bastante difundida pelo saudoso Prof. Phidadelpho Menezes (1960-2000) nos meios universitários. O que tem sido feito para introduzir a poesia no cotidiano? Raras interpretações de poesia por atores consagrados (Walmor Chagas, Miguel Falabella, Paulo Autran, Othon Bastos, etc.), alguns cassetes e cds de difícil localização, uma Coleção Poesia Falada (produzida por Paulinho Lima, Rio de Janeiro) que se engatinha, algumas encontros bem esparsos para leituras de poesias. Com isso, eu quero dizer que a poesia brasileira perdeu espaço para a música popular, que contém letras de músicas, que são também poesias, das mais diferentes qualidades. A poesia impressa (e agora a eletrôncia) não deixou espaço para a poesia lida, falada, declamada, performatizada no Brasil. Isso é um dos fatores importantes para que ocorra a introdução da poesia no cotidiano das pessoas. Caso contrário, a gente fica com a (quase sempre má) poesia, para outros fins, dos padres, pastores evangélicos, políticos, professores vocacionados para o teatro, etc. A poesia é para todos, priviliegiados ou não. Está faltando um movimento de divulgação dessa arte da palavra. Falta um incentivo maior da parte dos cursos de letras das instituições de ensino superior, que, ao invés de só priviligeriarem estudos de autores (geralmente apenas os consagrados), deveriam incluir as produções poéticas e literárias como parte do ensino, a exemplo das escolas de artes (música, teatro, cinema, artes visuais,etc.). Quando isso acontecer, a poesia poderá ser melhor valorizada. Não se trata apenas de concursos literários, mas de convite à criação da poesia como uma forma de comunicação.As linguagens podem ser classificadas em diferentes gêneros e categorias. A poesia de Cesário Verde limita-se à linguagem verbal, em primeiro lugar, e poética, em segundo? Do seu ponto de vista, de especialista, para que se possa alcançar o limite poético é necessário experimentar outros níveis de linguagem? Como é isso?Vamos inicialmente falar de tipos de linguagens por meio dos códigos: verbal (palavra falada e/ou escrita), visual (imagem), sonora (sons, música). Quanto aos meios, podemos ter linguagem oral (falada ou gravada), escrita (impressa em qualquer tipo de suporte), tridimensional (que se apresenta em suportes tridimensionais, como as instalações) e eletrônica (que circula na televisão, vídeo, cinema, meios computacionais). Ao invés de falar em linguagem verbal e poética, eu prefiro utilizar as funções da linguagem de acordo com Roman Jakobson: referencial, fática, conativa, poética, emotiva, metalingúística. No caso da linguagem de Cesário Verde, estudei duas cartas e as suas poesias. Ele usa a linguagem verbal, em ambas, para expressar a sua visão de mundo por meio do predomínio da função poética da linguagem. No estabelecimento de suas relações com a realidade (eu me refiro aqui ao tema urbano, a cidade de Lisboa, que foi o foco do meu estudo), ele, mesmo fazendo poesia verbal, isto é, poesias apenas com palavras (mais rima, métrica, ritmo, estrofes), se utiliza de imagens visuais (ou, mesmo, imagens literárias) e sonoras, criando uma sinestesia, para estabelecer relações metáforicas. Logo, ler a poesia de Cesário Verde é um leitura de palavras que nos apresenta imagens, aparentemente descritivas, que produzem sensações semelhantes à contemplação de uma pintura. Eis algumas expressões do próprio Cesário (isso está no capítulo Os poemas-pinturas (páginas 171-98): pinto por quadros, por letras, por sinais, em todo o caso dava uma aguarela, e eu, de luneta de uma lente só, eu acho sempre assunto a quadros revoltados, e eu recompunha, por anatomia, um novo corpo orgânico, aos bocados, e eu, que urdia estes fáceis esbocetos, eu mal esboço o quadro da lírica excursão, etc. A linguagem poética lembra a propaganda do xampu denorex: parece, mas não é. Mesmo quando ela é apenas formada de palavras, ela se refere a sons, a imagens, a cores, a formas, e a movimentos. É aquilo que Roland Barthes denomina de função utópica da literatura: ela quer representar o real (pluridimensional) através da linguagem (unidimensional). O uso de imagens e do vídeo na poesia nos apresentaram a poesia visual e a videopoesia como uma adaptação natural da poesia verbal.

A paixão pela poesia - gosto que descobriu ainda na adolescência - faz de Jorge Luiz Antônio, morador de Itu, uma referência quando o assunto é colocar no foco de atenção o que é, foi e virá a ser a arte de fazer poesia. Nesta página, ele fala um pouco de sua vida e centra-se nas respostas dadas em seu livro sobre o poeta português Cesário Verde, originada de sua dissertação de Mestrado.Jorge Luiz é exemplo de quem faz o que gosta, desnudado em si próprio. Autor de livro sobre o pintor Almeida Júnior; ex-funcionário do Banco do Brasil; ex-professor de Língua Portuguesa em cursinhos e ensino médio e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, onde atualmente faz o doutorado, ele mantém na internet, aberto a quem interessar, uma homepage onde centraliza a compilação que faz da Brazilian Digital Art and Poetry on the Web (arte poética e digital do Brasil disponível na rede de computadores - http://www.vispo.com//misc/BrazilianDigitalPoetry.htm.)Leia a seguir a entrevista com o pesquisador:Cores, Forma, Luz, Movimento: A Poesia de Cesário Verde é, em forma de livro, sua tese de doutorado no programa de Comunicação e Semiótica da PUC/SP. O título indica que a obra trata da poesia (abstrato) de importante poeta português por um viés de elementos essenciais da Física (concreto), enquanto um dos campos da ciência. Esta relação transparece em sua obra?O livro é o resultado da minha dissertação de mestrado, defendida em 1999. A minha tese de doutorado está sendo escrita, e trata sobre a poesia eletrônica, e será defendida ainda este ano. Não abordo a relação da poesia com a física, mas da poesia com a pintura realista impressionista. Cores, forma, luz, movimento são termos também usados para se falar da pintura impressionista. Trata-se da verificação, na poesia de Cesário Verde, em comparação com outros poetas, da visualidade expressa em palavras poéticas, de um modo geral, e da pintura realista impressionista que transparece na poesia verbal do poeta português. Após um estudo teórico e panorâmico das relações entre Poesia e Pintura, faço aproximações entre pintura impressionista e literatura impressionista, para chegar à leitura da poesia impressionista na obra de Cesário Verde. É que a poesia de Cesário Verde apresenta muitas paisagens (urbanas e rurais) e o eu-poético também usas metáforas da pintura.Na apresentação do livro, está afirmado que ele é resultado de um estudo sobre a obra do poeta português José Joaquim Cesário Verde (1855-1886) com o objetivo de estabelecer relações com a poesia e a pintura impressionistas. Ora, como um pesquisador/autor de Itu, como é o seu caso, chega a um poeta português tão pouco divulgado entre nós e qual a essência da motivação de estabelecer uma relação entre dois gêneros de expressão (poesia e pintura) numa classificação única dos vários períodos da história da arte (impressionismo)?Há um percurso de estudos pessoais e autodidáticos antes de chegar à PUC SP e a Cesário Verde. Estudei literatura porque gosto de escrever, principalmente poesia, desde adolescente. Dentre as diversas tentativas de fazer pós-graduação, fui para Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e desenvolvi um estudo sobre a vida e a obra do pintor José Ferraz de Almeida Júnior (1850-1899), que resultou no livro Almeida Júnior através dos tempos (1983). Trabalhei no Banco do Brasil, para o qual também fui instrutor de Comunicação Administrativa por uns doze anos. Depois fui ser professor de Literatura e Redação em escolas de ensino médio. Mais estudos muito dirigidos para o ensino reducionista em colégios e cursinhos para o vestibular. Em seguida, resolvi fazer uma especialização para entender melhor a literatura. Fui para o Curso de Pós-Graduação Lato Sensu de Literatura da COGEAE da PUC SP, de 1995 a 1996. Já gostava muito da poesia de Antero de Quental e Guerra Junqueiro, da época do Cesário Verde. A escolha por autores portugueses é talvez pelo fato de eu ser neto de portugueses. Na COGEAE, dentre outras leituras, fiz estudos sobre Augusto dos Anjos e Cesário Verde. Sobre o primeiro saiu uma monografia - Ciência, Arte e Metáfora na Poesia de Augusto dos Anjos -, para o lato sensu, que estou tentando publicar, porque é muito extensa para uma revista (cerca de 40 páginas); deixei o Cesário para o mestrado, e saiu o livro. Uma das motivações para tudo isso foi o curso da COGEAE, depois o Programa de Comunicação e Semiótica, pois eles enfatizam determinados autores e certas relações comparatistas e semióticas. Na busca de um tema original para a monografia de lato sensu e para a dissertação de mestrado, as pesquisas me indicaram caminhos apontados e não desenvolvidos pelos estudiosos do assunto. No caso do Cesário Verde, foi a poesia dele que me levou a ficar centrado na poesia realista impressionista. Contudo, os capítulos A poesia-pintura e A poesia-pintura realista impressionista, nas páginas 87 a 169, tratam de outros poetas e da visualidade na poesia portuguesa. Chegar ao conceito de poesia realista impressionista, principalmente porque o impressionismo literário não é um movimento bem delimitado na literatura, ao contrário da pintura, foi um grande desafio. Isso exigiu que eu assumisse um ponto de vista e procurasse defendê-lo. Houve quem colocou dúvidas se eu obteria parecer favorável da FAPESP, mas felizmente tudo correu bem. Há poucas dissertações sobre o Cesário Verde e algumas teses de doutorado no Brasil. Os trabalhos de Maria Aparecida Paschoalin e o Ricado Gumbleton Daunt Neto me parecem os melhores. Há alguns livros dedicados somente a Cesário Verde, mas foram publicados em Portugal; no Brasil, com base nas pesquisas que fiz, o meu livro é o primeiro.Num momento em que a coisa mais prática da vida, a existência da fome, entre nós brasileiros, é recolocada no plano central das ações governamentais e noticiosas, em sua avaliação, como a poesia deve ser introduzida ao cotidiano das pessoas? Ou você acha que a poesia não deve fazer parte da vida? Ou porque ela deve? Enfim, qual é o papel da linguagem, em particular a poética, num cotidiano como o nosso de privilegiados, mas também de miseráveis excluídos?Poesia e vida prática, poesia e fome, cotidianismo - você está apresentando um novo tema para futura tese e livro. A poesia pode ser introduzida no cotidiano, com fome ou sem, para os pobres e para os ricos, para os privilegiados que fazem um curso de pós-graduação, para aqueles que não conseguiram concluir o ensino fundamental. As regiões Norte e Nordeste do Brasil são exemplos disso: há poesia até na entonação musical da fala do nosso povo. É uma poesia oral que circula e dá um toque especial. Acho que isso está um pouco esquecido no Sudeste, mas existe no Centro-Oeste e no Sul (a poesia dos pampas). O meu livro não tem por objetivo introduzir a poesia no cotidiano, pois não foi esse o meu objeto de pesquisa durante o mestrado. Nem Carlos Felipe Moisés, em Poesia não é difícil: introdução à análise de texto poético conseguiu isso. Se eu escolhesse esse enfoque, trabalharia com a poesia de Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, ou João Cabral de Melo Neto, e faria alguma apresentações em locais públicos, nas rádios, na televisão, para estudar a reação do público e, talvez, restabelecer um novo gênero de apresentação, o poético. Ou eu adotaria um estudo teórico-prático com base no livro A poesia da canção, de Joaquim Aguiar. Também, poderia fazer uma leitura brasileira do Como fazer versos, de V. Maiakóvski. Hayakawa, em A linguagem no pensamento e na ação, traz uma afirmação que está bem adequada à sua pergunta e à minha resposta: Nunca se reconheceu devidamente o fato de que a gíria e a linguagem vulgar tentam persuadir exatamente segundo os mesmos princípios usados na poesia. Utilizam, com freqüência, a metáfora e o símile. Ex.: Por a mão no fogo por alguém, estar claro como o dia, estar num beco sem saída (...). O processo imaginativo pelo qual se inventam frases como estas é o mesmo pelo qual os poetas chegam à poesia. Por esse ângulo, a poesia pode ser introduzida no cotidiano das pessoas. Melhor dizendo, ele já é parte integrante desse cotidiano, mesmo que essas pessoas, alfabetizadas ou não, nem sequer saibam conceituá-la. As letras das músicas populares são poesias que se incorporam ao cotidiano das pessoas, com a vantagem de ter a sonoridade materializada em lindas canções. Há uma relação entre poesia e vida cotidiana na letra Para não dizer que não falei das flores e Mais luz, de Antero de Quental. Vou citar um exemplo. Estou fazendo a resenha do livro Tecno-Poesia e realtà virtuali, de Caterina Davinio, da Itália. Dentre as subclassificações de tecno-poesia, ela apresentou performance e performers. Como é um livro que documenta a tecno-poesia internacional, não encontrei nenhum brasileiro nessa categoria. Não foi falha de pesquisa dela, não, porque em todas as outras categorias há brasileiros, como Arnaldo Antunes (videopoesia), Eduardo Kac (holopoesia), Augusto de Campos (poesia digital), etc. É que não há uma tradição de leitura de poesias no Brasil, depois do começo do século (Modernismo, se não me falha a memória). Há um site português - Poetas e Pintores Surrealistas -, organizado por José António Chagas Machado (http://jacm.net/surrealismo/) , que oferece leitura das poesias selecionadas, e esse material é parte de programas radiofônicos. Quando Christopher Funkhouser, professor do New Jersey Institute of Techonology, EUA, esteve no Brasil, apresentou performances com poesia cibertextual e com auxílio de um computador e um professor multimídia. E se tratava de poesia pós-estrutural. Acompanhei-o em três apresentações (Instituto de Artes da Unesp São Paulo, Faculdade de Comunicação e Artes do Corpo da PUC SP e Centro de Pesquisa em Cibercultura da Faculdade Senac de Comunicação e Artes). E foi uma surpresa mesmo no meio universitário. E as poesias sonora e performática foi bastante difundida pelo saudoso Prof. Phidadelpho Menezes (1960-2000) nos meios universitários. O que tem sido feito para introduzir a poesia no cotidiano? Raras interpretações de poesia por atores consagrados (Walmor Chagas, Miguel Falabella, Paulo Autran, Othon Bastos, etc.), alguns cassetes e cds de difícil localização, uma Coleção Poesia Falada (produzida por Paulinho Lima, Rio de Janeiro) que se engatinha, algumas encontros bem esparsos para leituras de poesias. Com isso, eu quero dizer que a poesia brasileira perdeu espaço para a música popular, que contém letras de músicas, que são também poesias, das mais diferentes qualidades. A poesia impressa (e agora a eletrôncia) não deixou espaço para a poesia lida, falada, declamada, performatizada no Brasil. Isso é um dos fatores importantes para que ocorra a introdução da poesia no cotidiano das pessoas. Caso contrário, a gente fica com a (quase sempre má) poesia, para outros fins, dos padres, pastores evangélicos, políticos, professores vocacionados para o teatro, etc. A poesia é para todos, priviliegiados ou não. Está faltando um movimento de divulgação dessa arte da palavra. Falta um incentivo maior da parte dos cursos de letras das instituições de ensino superior, que, ao invés de só priviligeriarem estudos de autores (geralmente apenas os consagrados), deveriam incluir as produções poéticas e literárias como parte do ensino, a exemplo das escolas de artes (música, teatro, cinema, artes visuais,etc.). Quando isso acontecer, a poesia poderá ser melhor valorizada. Não se trata apenas de concursos literários, mas de convite à criação da poesia como uma forma de comunicação.As linguagens podem ser classificadas em diferentes gêneros e categorias. A poesia de Cesário Verde limita-se à linguagem verbal, em primeiro lugar, e poética, em segundo? Do seu ponto de vista, de especialista, para que se possa alcançar o limite poético é necessário experimentar outros níveis de linguagem? Como é isso?Vamos inicialmente falar de tipos de linguagens por meio dos códigos: verbal (palavra falada e/ou escrita), visual (imagem), sonora (sons, música). Quanto aos meios, podemos ter linguagem oral (falada ou gravada), escrita (impressa em qualquer tipo de suporte), tridimensional (que se apresenta em suportes tridimensionais, como as instalações) e eletrônica (que circula na televisão, vídeo, cinema, meios computacionais). Ao invés de falar em linguagem verbal e poética, eu prefiro utilizar as funções da linguagem de acordo com Roman Jakobson: referencial, fática, conativa, poética, emotiva, metalingúística. No caso da linguagem de Cesário Verde, estudei duas cartas e as suas poesias. Ele usa a linguagem verbal, em ambas, para expressar a sua visão de mundo por meio do predomínio da função poética da linguagem. No estabelecimento de suas relações com a realidade (eu me refiro aqui ao tema urbano, a cidade de Lisboa, que foi o foco do meu estudo), ele, mesmo fazendo poesia verbal, isto é, poesias apenas com palavras (mais rima, métrica, ritmo, estrofes), se utiliza de imagens visuais (ou, mesmo, imagens literárias) e sonoras, criando uma sinestesia, para estabelecer relações metáforicas. Logo, ler a poesia de Cesário Verde é um leitura de palavras que nos apresenta imagens, aparentemente descritivas, que produzem sensações semelhantes à contemplação de uma pintura. Eis algumas expressões do próprio Cesário (isso está no capítulo Os poemas-pinturas (páginas 171-98): pinto por quadros, por letras, por sinais, em todo o caso dava uma aguarela, e eu, de luneta de uma lente só, eu acho sempre assunto a quadros revoltados, e eu recompunha, por anatomia, um novo corpo orgânico, aos bocados, e eu, que urdia estes fáceis esbocetos, eu mal esboço o quadro da lírica excursão, etc. A linguagem poética lembra a propaganda do xampu denorex: parece, mas não é. Mesmo quando ela é apenas formada de palavras, ela se refere a sons, a imagens, a cores, a formas, e a movimentos. É aquilo que Roland Barthes denomina de função utópica da literatura: ela quer representar o real (pluridimensional) através da linguagem (unidimensional). O uso de imagens e do vídeo na poesia nos apresentaram a poesia visual e a videopoesia como uma adaptação natural da poesia verbal. >


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