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Notícia publicada na edição de 20-11-2007 do Jornal Cruzeiro do Sul, editoria Sorocaba

Sorocaba

Sorocaba

Há 141 anos, o Cafundó luta para continuar existindo

FotoA comunidade do Cafundó está localizada na zona rural de Salto de Pirapora

"Mesmo depois que a mídia chegou (há 29 anos), não mudou nada aqui", disse o coordenador da Associação Remanescente Quimbundo do Cafundó, Marcos Norberto de Almeida, de 47 anos. Ele é bisneto de Ifigênia de Almeida Caetano, escrava liberta e uma das herdeiras das terras que deram origem ao Cafundó, há 141 anos na zona rural de Salto de Pirapora. Marcos se apega ao fato da comunidade ter sido "descoberta" por várias pessoas, mas na prática as dificuldades para garantir a preservação da comunidade continua a mesma. Na aldeia, que hoje tem 22 famílias um total de 105 pessoas, sendo 63 crianças e adolescentes -, há falta de infra-estrutura: as ruas ainda são de terra; existe apenas um telefone público para uso de toda a comunidade, já que nenhuma casa tem o equipamento próprio. A maioria das casas são de alvenaria, há seis anos eram de taipa. Não há escola no bairro, a única unidade fica distante 8 quilômetros. O transporte público atende apenas os estudantes, às 6h e às 12h. Não há transporte urbano, apesar do centro ficar a 14 quilômetros da aldeia. Também não existe posto de saúde próximo. Mas "o pior" é a falta de projetos socioculturais por parte de todas as esferas do governo. "Nunca veio alguém aqui disposto a nos ensinar algo. Vem muita gente aqui, nos estuda, pergunta sobre nossa história, faz livro, documentário. Mas nos ajudar, ensinar a plantar, construir ou preservar, ninguém veio até hoje", relata Marcos que, como os demais, cria galinha e uma horta para a própria sobrevivência. Ele acredita que além da cultura estar se perdendo, muitas famílias têm deixado o vilarejo atrás de melhores condições. "Três famílias deixaram o bairro no ano passado", argumenta. Marcos e Juvenil Rosa, que são primos, são os únicos da "nova" geração que ainda falam "cupópia" um dialeto africano, ainda em estudo. Fora eles, apenas Judith de Oliveira Pires, de 68 anos (casada com quilombola) e Adauto Norberto Rosa de Almeida, de 64 anos, descendente de quilombola, falam "cupópia". Resistência Regina Pereira, de 48 anos funcionária pública de Campinas, que há quatro anos mudou-se para o Cafundó, é uma das que lutam diariamente pela preservação da história local. Graças à sua iniciativa, nasceu as "Quilombóias", um grupo de mulheres remanescentes que diariamente se reúnem para confeccionar produtos artesanais tradicionais dos quilombos. Como por exemplo, elas fazem casinhas de barro em miniatura, tambu-um instrumento musical feito de bambu e couro de cabra, usado em festividades -, objetos de ornamentação com sementes e esteiras de palha. "Tentamos cultivar nossas raízes", conta ela orgulhosa porque foi através desse projeto que conseguiu envolver as adolescentes locais. "Agora as meninas estão aprendendo o que seus antepassados faziam", salienta. Com a venda dos produtos, na localidade e em feiras da cidade, o grupo tem conseguido se manter e manter a associação, também nascida há quatro anos. Outra vitória ali apontada por ela foi a elaboração de uma revista que conta a história da localidade, intitulada "Dona Ifigênia". "Conseguimos, pelo conhecimento de uma amiga, apoio financeiro do governo estadual (verba da Secretaria de Cultura) para publicação de mil exemplares da revista". Para realizar o projeto Regina conta que nomeou uma comissão na comunidade, além disso, alguns adolescentes se encarregaram de resgatar a história junto dos mais velhos. "Foi muito bom porque os adolescente se envolveram com o projeto e passaram a dar mais valor a essa história", acredita. Fernanda dos Santos e Adriana de Almeida Pires, ambas de 13 anos, são exemplo disso. As duas coordenaram o grupo de adolescentes que contou a história da revista. "Foi legal porque antes eu nem dava muito valor por tudo isso, nem gostava daqui", fala Fernanda, para orgulho não só de Regina, mas das primas Judith Pires Machado e Neuraci Rodrigues Machado, ambas descendentes de quilombolas. A publicação da revista, concordam todos, é uma mostra de que o incentivo para que mantenham-se na localidade vem do próprio coração. É o que afirma Regina, que descobriu recentemente que é descendente de uma comunidade quilombola, mas da Bahia. "Depois que me mudei para cá, por pura paixão, é que estudei e descobri a minha origem", orgulha-se ela. Já Marcos é mais enfático: "tanto reconhecimento, para nada. Nada mudou para nós. Só temos documentos. Na prática, sabemos que várias verbas poderiam chegar a nós. Mas não é o que acontece", disse. Leia mais sobre o Dia da Consciência Negra nas páginas B4, B8 e C1


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