O Acervo Cruzeiro do Sul contém matérias publicadas na web ( versão on-line e na edição impressa ), desde maio de 2003.
O Federal Reserva (FED), o Banco Central norte-americano, decidiu reduzir em 0,25 ponto a taxa básica de juros dos Estados Unidos, jogando-a para 4,25% ao ano. Entenda melhor esse xadrez complexo de uma economia global interligada. O FED tinha dois desafios pela frente. Um, o desaquecimento da economia americana. Para combatê-lo, preciso reduzir os juros. Outro, o aumento da inflação nos Estados Unidos, em função do aumento dos preços do petróleo e das commodities agrícolas. Detalhe: o aumento desses preços está diretamente relacionado com a desvalorização do dólar. Cada vez que o dólar se desvaloriza, os preços desses bens aumentam para compensar a desvalorização. Esse é o primeiro lance da equação. *** O segundo lance é o seguinte. Quando o FED reduz a taxa de juros básica, automaticamente reduz a rentabilidade dos títulos de renda fixa. Com isso, há uma fuga do dólar para outras moedas, desvalorizando-o ainda mais. E pressionando a inflação. Como o FED pensa não só em inflação (como o nosso Bacen) mas também em crescimento, prefere apostar na redução dos juros. *** Ocorre que essa queda dos juros precipita a desvalorização ainda maior do dólar. E aí ocorrem os seguintes fenômenos, um no plano financeiro-cambial, outro no plano comercial, ambos interligados: 1 - Sobra mais dinheiro no mercado internacional, fugindo do dólar para outras moedas. Esse movimento acentua a desvalorização do dólar e acentua a valorização de outras moedas, principalmente de países que estão pagando juros muito elevados - como o Brasil. 2 - Com a desvalorização do dólar, as exportações americanas ficam mais baratas e as importações mais caras. Ao mesmo tempo, há o fenômeno do aumento da inflação mundial. E aí existem diferenças entre os diversos bancos centrais. O Banco Central Europeu mantém as taxas elevadas para conter a inflação. A Europa passa a sofrer nas duas pontas: com queda da atividade, em função dos juros; e em função do euro apreciado. E aí surgem pressões internas para o BCE ser mais flexível. Ao mesmo tempo, a China tem sentido aumento da inflação, apesar de conseguir baratear a produção de bens. E seu BC está atuando cada vez mais para conter a atividade econômica. 3 - Tem-se, então, a economia mundial reduzindo o ritmo, o comércio mundial acompanhando. O bolo fica menor e, ao mesmo tempo, existem não mais um, mas dois tigres famintos atrás de fatias do comércio: os EUA, e a China. *** Dentro dessa engrenagem complexa, letal, qual a estratégia brasileira? A cada dia que passa, o dólar se desvaloriza mais, frente ao real. Com a nova redução dos juros norte-americanos, como o BC não vai acompanhar, irá aumentar o fluxo de dólares financeiros para dentro do país, apreciando ainda mais o câmbio. Em um primeiro momento, ocorre a melhoria do poder aquisitivo da população, já que os importados ficam mais baratos. Só que, a cada dia que passa, as importações irão ocupar o espaço da produção interna, cada vez mais. No início, substituindo componentes, depois, gradativamente, substituindo produtos completos. E o governo observa a tudo isso inerte.