O Acervo Cruzeiro do Sul contém matérias publicadas na web ( versão on-line e na edição impressa ), desde maio de 2003.
O grupo da melhor idade se reúne
toda segunda-feira das 14h às 17h, no Espaço Cultural
Municipal; a atividade é gratuito
O diretor Hamilton Sbrana
Grupo formado por pessoas na
faixa dos 45 aos 70 anos, descobre o prazer do teatro
Nada de passar a tarde assistindo ao Vale a pena ver de Novo, nada de indisposição. Contra os males do sedentarismo e da baixa auto-estima, mas, principalmente, pela oportunidade de se sentir útil e produtivo, um grupo de quase 20 pessoas da melhor idade (na faixa dos 45 aos 70 anos) encontrou, no teatro, a resposta que buscava para voltar a viver. Integrantes do grupo Cara & Coragem, eles montam, há quatro anos, espetáculos que são apresentados em Sorocaba e cidades da região. À frente do projeto está o diretor Hamilton Sbrana. Também ator, com 35 anos de experiência, ele coordena a atividade realizada em parceria com a Oficina Cultural Grande Otelo e a Secretaria de Cultura do Município. Sbrana conta que transmite à turma noções básicas do exercício dramático, como expressão corporal, e ocupação do espaço cênico. Os textos das montagens levadas à cena são concebidos pelos próprios atores, Hamilton apenas adapta a linguagem. No momento, o Cara & Coragem cumpre a temporada de Quando os netos forem avós. A peça coloca em discussão um tema palpitante: o uso da água. Antes dela, foi montada Cartola - o Sol Nascerá, produzida em homenagem ao compositor carioca, um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Diretor e elenco têm grande afinidade. Sbrana - que já dividiu, no fim da década de 70, o palco com Dimas Vieira na antológica Hello Boy, de Roberto Gill de Camargo, dirigiu espetáculos que promoviam a conscientização para os riscos de acidente do trabalho e outros com atores mais jovens - comenta que a atual experiência, sob certos aspectos, é diferente. Eles (os atores) têm mais energia, pique. Servem de exemplo e nos ensinam muito. A troca, até por isso, é muito positiva. Nós, inclusive, participamos de festivais, concorremos com grupos experientes e vencemos em algumas categorias. O reconhecimento é recíproco. O bom no trabalho do Hamilton é que ele não nos dispensa tratamento diferenciado por conta da idade. Aqui todos cumprem a mesma função, estão sujeitos aos mesmos desafios, destaca Linda Inácio, de 64 anos, perto de completar 65, como fez questão de mencionar. Aliás, o interessante no grupo é que todos fazem questão de dizer que são mais velhos do que aparentam. Melhor dizendo, são jovens há mais tempo, conforme a atriz Neide Leite de Souza, 67. Antes do trabalho com a companhia, diz ela, o mundo tinha outra dimensão. Aqui, percebemos que a vida passa muito depressa e que é preciso se sentir útil. Somos uma família, todos se preocupam uns com os outros. Neide acrescenta que cansou de assistir, em casa, ao Vale a pena ver de novo. A ordem, agora, é vale a pena ser de novo, filosofa. O envolvimento com o projeto é tamanho, que Neide insistiu para se apresentar, mesmo quando ficou viúva. Eu não tinha o direito de impedir que eles faltassem com o compromisso. Seria um desrespeito com os colegas e o público também, afirmou. O depoimento comprova que Hamilton Sbrana parece mesmo ter descoberto um eficiente mecanismo de resgate da auto-estima. O mérito é todo deles. Eu só fiz dar o começo, comenta o diretor. Quem quiser agendar apresentações do Cara & Coragem, que volta à atividade a partir de 15 de janeiro, pode manter contato pelo telefone (15) 3013-7968 ou (15) 3233-3534.