Há apenas algumas semanas, os juros prevalecentes nos leilões de títulos de dívida vinham batendo recordes de alta. A Itália, por exemplo, teve de se conformar a ter de pagar mais de 7,00% ao ano. A Espanha chegou a se comprometer com juros quase nos mesmos níveis. E até mesmo a Alemanha, que em novembro passou pelo vexame de não conseguir comprador para seus títulos, na semana passada não só encontrou o dobro de interessados por 9 bilhões de euros por títulos de cinco anos, como também passou a pagar juros baixíssimos de 0,90% ao ano ou mesmo negativos na oferta de títulos por seis meses.
O que estava mudando? Primeiramente, o BCE intensificou as recompras de títulos da Itália e da Espanha, largados no mercado secundário. O principal efeito dessa atuação foi o aumento da procura por esses papéis e uma alta dos rendimentos (yields) pagos. A segunda operação consistiu em abrir, a partir do início de dezembro, crédito ilimitado aos bancos sob sua jurisdição. Com mais dinheiro barato (de 1% ao ano), os bancos se encorajaram a subscrever mais aplicações em títulos soberanos - que vinham pagando até mais de 7,0% ao ano.
Dados divulgados nessa semana pelo BCE acusam aplicações de 213 bilhões de euros em dívidas de países da área do euro desde maio de 2010. E algo mais do que isso foi repassado aos bancos, perfazendo a injeção de mais de meio trilhão de euros.
Essas operações contornaram a proibição expressa nos tratados de que o BCE financie diretamente os Tesouros dos países do bloco. Como, no entanto, os principais credores dessas dívidas são os bancos, os eurodutos abertos garantiram nova e ilimitada fonte de refinanciamento dessas dívidas.
Uma das consequências desse novo jogo foi a forte desvalorização do euro em relação ao dólar. É um efeito não muito diferente do que o obtido pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), com suas duas grandes operações denominadas afrouxamento monetário quantitativo, num total de US$ 900 bilhões.
Essa desvalorização do euro foi um dos principais fatores que provocaram, também, a valorização do real no câmbio brasileiro, de 4,07% apenas neste início de janeiro.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, que ganhou notoriedade internacional em 2011 por denunciar a guerra cambial deflagrada pela desvalorização do dólar, agora teria outra razão para estender sua queixa inclusive para a ação do BCE. Se o fizer, Draghi poderia repetir a resposta dada por Ben Bernanke: os países que se queixam dos eventuais prejuízos provocados pela valorização de suas próprias moedas, em consequência das operações de afrouxamento monetário quantitativo, teriam ainda mais a perder se o Fed não fizesse nada para estancar a crise.
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