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09/03/2012 | EDITORIAL

Cenas de capitalismo explícito

Na macroeconomia, a sede de lucros que encareceu os combustíveis da noite para o dia é a força que faz com que o capital dê voltas ao mundo em busca de investimentos"
Notícia publicada na edição de 09/03/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 003 do caderno A - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

 

Foi preciso apenas um pretexto - a greve dos caminhoneiros autônomos que transportam combustíveis, em protesto contra a restrição ao tráfego de caminhões na Marginal Tietê, em São Paulo - para que donos de postos esfolassem seus clientes com reajustes intempestivos nos preços do álcool e da gasolina.

 

De repente, o gesto corriqueiro de abastecer o carro se tornou uma lição dolorosa de como o capitalismo é essencialmente selvagem: basta que exista um ambiente psicológico propício - gerado por fatos capazes de sustentar perspectivas alarmistas, ou simplesmente por boatos -para que as relações de mercado sejam subvertidas por ataques especulativos.

 

Os reajustes praticados em Sorocaba e na capital subverteram uma das leis fundamentais do mercado, segundo a qual os preços são pressionados para cima quando a oferta de produtos é menor que a demanda. Não foi preciso que o desabastecimento se caracterizasse para que os preços subissem: bastou o receio de que ele ocorresse.

 

Esse é apenas um exemplo tirado do dia a dia, mas cujos princípios gerais - e falta de princípios - aplicam-se ao mercado em sua totalidade. Na macroeconomia, a sede de lucros que encareceu os combustíveis da noite para o dia é a força que faz com que o capital dê voltas ao mundo em busca de investimentos capazes de oferecer uma boa remuneração, e esse é um dos principais problemas enfrentados pelo governo brasileiro neste momento.

 

A enxurrada monetária promovida pelos países europeus, na tentativa de sair da recessão, tem desaguado no Brasil com tamanha regularidade que colocou o governo em estado de alerta. Dólares em excesso provocam a supervalorização do real, que por sua vez favorece as importações e torna a indústria nacional menos competitiva.

 

O perigo, neste caso, é concreto e foi expresso pela presidente Dilma Rousseff, em sua visita à Alemanha. Dilma denunciou o uso do câmbio pelos países europeus como uma forma de protecionismo para seus produtos.

 

O desequilíbrio entre importações e exportações é apenas uma das muitas facetas do problema. Os mesmos juros altos que atraem investimentos especulativos internacionais para o Brasil representam um freio para a economia nacional, já que encarecem o crédito. Por isso, a redução de 0,75 ponto na taxa básica de juros, deliberada anteontem pelo Comitê de Política Monetária (Copom), foi tão bem recebida pelo mercado.

 

Guardadas as proporções, o ataque especulativo dos postos de combustíveis e o "tsunami cambial" denunciado por Dilma são evidências de que o mercado não pode ser deixado por conta de suas próprias "leis", sob pena de ocorrerem desvios graves, com prejuízos irreparáveis para as pessoas, para os países e até para a economia mundial.

 

Em poucas décadas, o Brasil saiu de uma economia engessada - em que os preços eram tabelados pelo governo e as importações de carros e computadores, proibidas - para um modelo aberto, em que o capital circula com desenvoltura e os empreendimentos têm mais chances de progredir, já que dependem mais da competência gerencial e menos dos humores do governo.

 

Tudo isso, entretanto, não afasta a necessidade de um monitoramento ininterrupto da atividade econômica, para corrigir os rumos quando necessário e proteger os interesses dos consumidores, dos empresários e da economia como um todo.

 

O mercado que se autorregula é uma utopia como qualquer outra, até porque a essência que move o capitalismo é a ambição, e esta nem sempre tem escrúpulos. No dia a dia do consumidor e na macroeconomia, uma atuação responsável do governo se faz necessária, coibindo abusos, direcionando investimentos, favorecendo o lado bom do capitalismo e evitando o lado ruim, que existe e não é pequeno.

 


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