Torres de alta tensão exercem um estranho fascínio sobre pessoas com distúrbios mentais ou sob forte impacto emocional, que as escalam de tempos em tempos em aparente tentativa de suicídio - ou, talvez, como pedido mudo de socorro - e obrigam a concessionária a paralisar o fornecimento de energia enquanto o invasor não é removido em segurança. Em Sorocaba e Votorantim, as ocorrências têm sido esparsas. Conforme apurou este jornal, foram registrados cinco casos entre 2001 e 2003. Porém, dadas as dimensões dos transtornos que as escaladas acarretam, os responsáveis pelas torres localizadas em espaços abertos (poder público, concessionária) deveriam estudar formas mais eficazes de garantir sua proteção.
Até o início dos anos 2000, os incidentes eram mais frequentes. Alguns tiveram final trágico, como o que envolveu um homem de 35 anos, no dia 30 de dezembro de 1987. Ele subiu numa torre próxima à ponte Francisco Dellosso. Levou um choque de 88 mil volts e sofreu fraturas múltiplas ao despencar de uma altura de 15 metros. Faleceu no hospital, dias depois. Tragédias como essa levaram a concessionária de energia a instalar barreiras de lâminas afiadas nas torres mais visadas, o que contribuiu decisivamente para que as tentativas de escalá-las fossem reduzidas nos últimos anos.
Falhas do esquema de proteção às torres, entretanto, foram expostas na última quinta-feira, quando o pintor Reginaldo Domingues Rocha, de 49 anos, subiu sem dificuldades em outra torre da região central, provocando corre-corre de policiais, bombeiros e técnicos da CPFL Piratininga, e ocasionando um corte de energia que atingiu pelo menos 600 mil pessoas em Sorocaba e cinco municípios, durante quase uma hora e meia.
A ação de Reginaldo demonstrou de maneira muito convincente que a situação que parecia resolvida, na verdade, não está. O acesso às torres é fácil, embora a CPFL assegure cumprir rigorosamente todas as normas de segurança. O uso de lâminas pontiagudas (segundo a concessionária, instaladas de forma pioneira em Sorocaba) não é obrigatório e, como comprovou o jornal, muitas torres não têm essa proteção. Na ocorrência desta semana, a torre contava com as lâminas, mas elas não impediram a escalada, já que o pintor usava botas e, segundo um parente, está habituado a subir em lugares altos.
Essa situação precisa ser reavaliada, até porque os casos noticiados pela imprensa tendem a ser imitados. A atenção despertada por Reginaldo pode servir de estímulo a outras pessoas desequilibradas ou desesperadas. E não é apenas a própria vida que os escaladores de torres arriscam: cada vez que um caso desses acontece, bombeiros se expõem ao perigo para fazer o salvamento e a cidade se torna insegura. Semáforos são desligados, aparelhos param subitamente nas indústrias e sistemas de segurança de lojas e bancos deixam de funcionar.
Uma solução - ou, pelo menos, um reforço para a segurança - pode estar na aplicação da lei nº 7.422, de 13 de julho de 2005, que obriga "toda e qualquer concessionária" responsável pelo fornecimento de energia a instalar alambrados nas "áreas que são cortadas pelas torres de alta tensão, no perímetro urbano, onde existam edificações". A lei deveria entrar em vigor dois anos depois de promulgada (portanto, em julho de 2007), mas, ao que se sabe, jamais foi praticada pelo Executivo, que tinha um prazo de 60 dias para providenciar a regulamentação.
Com o novo incidente desta semana, esta e outras soluções deverão ser desengavetadas e discutidas. E mesmo a ausência de normas não deve ser empecilho para tanto, pois o que recomenda esse debate, sobretudo, é o bom-senso.