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24/03/2012 | AUTOMOBILISMO

Button se consolida como um dos maiores nomes da Fórmula 1

Por Livio Oricchio

John Button, um piloto amador inglês de rali cross, tinha gosto exótico, apresentava-se para as provas disputadas em pistas que misturavam trechos de asfalto e terra com um carro tipo gaiola um tanto particular. Logo ganhou o apelido de "Colorado Beetle". Foi bem nessa época, fim dos anos 70, que se separou da esposa, a sul-africana Simone Lyons. O quarto e último filho do casal, único homem, tinha 7 anos então. "Ele sentava no meu carro, colocava o capacete e fingia que pilotava. E sempre dizia, sem hesitar, que queria ser piloto", lembra John.

Foi nesse ambiente contaminado pela velocidade, cujo herói era o próprio pai, que Jenson Alexander Lyons Button cresceu. O resultado não poderia ser outro: acabou por seguir a carreira de piloto de competição. O tempo passa depressa. Na madrugada deste domingo, Jenson Button disputaria na Malásia mais uma etapa da Fórmula 1, estágio máximo para o desafio escolhido. "Não influenciado por mim", apressou-se em explicar John Button, claramente orgulhoso do filho.

O fato é que Jenson Button tornou um personagem da Fórmula 1. Um rico personagem. Todo campeão do mundo tem história. E bem na temporada em que poderia ter encerrado a carreira, com o fechamento da sua equipe, a Honda, no fim de 2008, um "milagre",como o próprio piloto definiu, aconteceu: "Você imagina receber uma ligação do chefe da equipe, em dezembro, e ouvir que seu time deixou de existir. Foi o que aconteceu comigo Nem havia como, àquela altura, tentar outra escuderia, estava tudo ocupado já", lembrou.

Para esse praticante contumaz de triatlo, com nível de performance respeitável, quando as coisas têm de ser de alguma forma acontecem. "A Honda deu origem à Brawn. Fomos testar o carro e depois de quatro voltas apenas, eu sabia que dispunha de equipamento para lutar pelo título. Não acreditei. Viajei de ficar de fora da Fórmula 1 a poder ser campeão, quase de um momento para o outro", contou Button.

O título em 2009, com a Brawn GP, o fez ascender à categoria dos mais capazes da Fórmula 1. "Jenson é rápido e tem ótima compreensão da corrida, de como administrar os pneus. Os meus acabam antes dos deles normalmente. É um piloto inteligente", analisou o hoje companheiro de McLaren, o também inglês Lewis Hamilton, que foi campeão da Fórmula 1 na temporada anterior à conquista de Button.

O que fez Button realmente vir a ser visto como um piloto excepcional não foi apenas o título de 2009, mas a derrota que impôs àquele que os ingleses consideravam ser impossível vencer na mesma equipe, Hamilton - afinal, nunca perdera uma disputa dessa natureza, desde o kart. "É o que diziam quando decidi trocar a Brawn GP (mudou o nome para Mercedes, em 2010) pela McLaren", reconheceu Button. "Ou que eu aceitei a mudança para a McLaren porque iria ganhar muito mais dinheiro, às custas de abalar minha reputação de campeão por eventualmente Lewis vencer tudo."

Agora, existe uma nítida tendência de os ingleses o considerarem mais capaz de conquistar grandes resultados pelo conjunto de valores que resume. "Jenson é dos mais completos pilotos da Fórmula 1", afirma o escocês Jackie Stewart, três vezes campeão do mundo. "Pode não ter a mesma velocidade de Lewis numa volta lançada, como nas classificações, mas é rápido também e com um visão de corrida rara."

"Quando Jenson começou a correr de kart, demonstrou logo de cara possuir talento. Estou falando do final dos ano 80. Nesses anos, Ayrton Senna e Alain Prost lutavam entre si na McLaren", lembra John Button. "Jenson gostava de Senna, mas dizia sempre apreciar mais a técnica de Prost."

Rubens Barrichello foi companheiro de Button na Honda e na Brawn GP. "Eu achei que movia pouco o volante. E realmente mexo quase nada. Mas quando comecei a ver na telemetria o que faz Jenson, fiquei impressionado, é muito técnico. Não só por isso, mas por tudo que conheci dele o coloco no nível de Schumacher", afirmou o brasileiro.

Em 1999, com apenas 19 anos, Button comprava ainda ingresso para assistir ao GP da Grã-Bretanha de Fórmula 1, temporada em que terminou como terceiro colocado no Britânico de Fórmula 3. E já no ano seguinte, aos 20 anos, estreava na Fórmula 1, pela Williams, uma das boas escuderias do Mundial. "Antes de Frank Williams nos ligar, no Natal de 1999, Prost telefonou. E ofereceu um teste, em Jerez. Jenson foi mais rápido que Jean Alesi", conta John Button.

No teste da Williams, Button competia contra o brasileiro Bruno Junqueira, campeão da Fórmula 3000, pela vaga, depois da dispensa do italiano Alessandro Zanardi. E Frank Williams optou pelo inglês. "Jenson conversou com Frank, que lhe comunicou a decisão, e em seguida veio falar comigo. Nós choramos juntos", recordou John Button.

Toda essa euforia por pouco não se transforma em tristeza em 2001, no segundo ano na Fórmula 1. Apesar da boa impressão no campeonato de estreia, Frank Williams decidiu substituí-lo pelo colombiano Juan Pablo Montoya. Mas Briatore, então diretor da Benetton, o contratou. "Tempos difíceis", disse Button. "É complicado para um piloto quando o chefe de equipe vem com o dedo em riste na sua cara cobrar melhores resultados, principalmente se você tem 21 anos de idade apenas, como era o meu caso."

Durante o GP de Mônaco daquele ano de 2001, numa sexta-feira, dia sem treino, Briatore conversava informalmente com a imprensa O assunto Jenson Button veio à tona. "Jenson? Você o viu? Eu não. Deve estar no seu iate se divertindo. A Fórmula 1 deixou de ser uma prioridade para ele. O que é uma pena, pois é talentoso", comentou o diretor da Benetton com um grupo de jornalistas.

"Os jornais ingleses passaram a defini-lo como o novo James Hunt da Fórmula 1, o novo playboy, e não era verdade. Jenson tinha a mesma namorada há três anos", explicou, ainda indignado, John Button, na última sexta-feira. Não é a mesma namorada de hoje, a elegante modelo Jessica Michibata, filha de mãe argentina e pai japonês.

A relação aberta, regular, carinhosa e dedicada entre ambos tem sido usada pela imprensa inglesa como o oposto do que vive Hamilton com a cantora pop norte-americana Nicole Scherzinger. O tumultuado namoro e o rompimento, no ano passado, desequilibraram Hamilton. Hoje estão juntos novamente. Enquanto isso, Button vive uma vida familiar, com a namorada e o pai sempre presentes.

Essa eficiência de Button o transformou num piloto desejado. A Ferrari o consultou no ano passado, antes dele renovar com a McLaren, para saber quais eram seus planos profissionais. "Fiquei feliz de ver que meu trabalho é apreciado. Ouvi o que algumas equipes tinham a me oferecer", revelou.

A McLaren, no entanto, é sua paixão. "Desde pequeno meu sonho era correr aqui. E é tudo muito profissional. Eles me descobriram e eu a eles. Tenho profunda identificação com minha equipe", admitiu Button. Pela reação do grupo, o sentimento é recíproco. O próprio salário anual, estimado em 10 milhões de euros, não deixa de ser uma forma de reconhecimento de suas habilidades extraordinárias.

Sobre o tempo do contrato assinado no ano passado, Button responde: "Segredo". Mas são grandes as possibilidades de encerrar a carreira, quando acabar o compromisso, possivelmente em 2014, no "time dos seus sonhos", que está muito capacitado neste ano para levá-lo a ser bicampeão do mundo. Com todos os méritos, diga-se.


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