Ao lado do "bailéo", um dos silos em alvenaria da Fazenda Cruzeiro do Sul, seu Aloísio Silva conta sobre a época em que era submetido a castigos, aos 10 anos de idade. Era alí que ficava preso quando os silos da Fazenda Santa Albertina estava cheio de ração. O menino cresceu nas terras dos Rocha Miranda, tendo conhecido cada palmo da área, inclusive da gleba-sede (Cruzeiro do Sul). Seu Aloísio deve ter sua vida contada num documentário a ser lançado ainda este ano, pela Giros, do Rio de Janeiro, cidade que deixou na década de 30. Ele veio na primeira de três viagens que trouxeram 50 meninos, do Educandário Romão de Mattos Duarte. Acostumado à uma infância com brincadeiras, Aloísio foi forçado a trabalhos braçais no campo.
Batizados por números - Aloísio era o 23 -, os órfãos sobreviveram aos castigos e aos serviços pesados sem remuneração, por pelo menos dez anos. "Eu sô revortado com tudo isso." Sob o pretexto de que estavam muito adiantados nos estudos, deixaram de ter aulas. Ele conta que a convivência entre os irmãos Rocha Miranda era estreita, e frequentemente os meninos eram convidados para se apresentar na Cruzeiro do Sul. Aprendeu a "tocar trombone de canto, clarineta e bombardino". Aloísio lembra do som alto que vinha da cocheira, onde o gado, sempre aos sábados, era ambientado por causa das exposições em várias partes do país. "Era pro gado num estranhá quando fosse pra otro canto aí participá dos concurso."
A marca que identificava a fazenda não causava estranheza, mesmo para os que não sabiam do seu significado. Os símbolos timbravam documentos e marcavam o gado da propriedade. Aloísio conta que depois de atingir a maioridade foi "alforriado", mas abandonado à própria sorte como os demais colegas. Alguns tentaram voltar a pé para o Rio de Janeiro. Ele poderia ter feito carreira no Exército, em Itapetininga, onde serviu por menos de um ano. Mas prejudicou-se pelo "gênio difícil". Bom de bola, teve oportunidade de fazer teste para jogar na Ferroviária, em Sorocaba. Novamente foi prejudicado, desta vez pelo vício do álcool que só conseguiu se livrar a uns 13 anos atrás. "Bebia pra esquecer tudo."
Aloísio conta que retornou à Fazenda Cruzeiro do Sul com mais de 30 anos, quando estava casado e tinha filhos. Voltou para trabalhar com os animais. Diz que criou e amansou muito burro "brabo" na Fazenda Cruzeiro do Sul. Na década de 70, deixou definitivamente de trabalhar com os Rocha Miranda. Desde então, retornou às terras - que tantas lembranças amargas lhe trazem - algumas poucas vezes. (T.S.)
Confira nos links http://tinyurl.com/3tghpkx e http://tinyurl.com/3l8ms7l a história de seu Aloísio e dos demais meninos-órfãos que foram transferidos do educandário do Rio de Janeiro, para as terras dos Rocha Miranda.
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