"Avenida Brasil" causa incômodos. Ao fugir do óbvio ao exibir a mocinha Nina, de Débora Falabella, com tons sombrios e a vilã Carminha, de Adriana Esteves, com um visual solar, a história tem a nítida intenção de causar desconfortos no telespectador. Ao escolher uma vilã loura, de roupas claras, que finge ser cristã e uma mocinha vingativa, sempre com lágrimas de ódio nos olhos, o autor João Emanuel Carneiro consegue provocar uma inquietação muito parecida com a que atingiu em "A Favorita". A primeira virada da história, exibida em 2009, foi por volta do capítulo 60, quando o público descobria que a "doce" Flora, de cabelos louros e angelicais, vivida por Patrícia Pillar, era a grande vilã da trama, enquanto a soturna Donatella, de Claudia Raia, era a principal vítima da obsessão da personagem e a verdadeira mocinha da história.
Já em "Avenida Brasil", que na próxima segunda, dia 4, exibirá o capítulo 67, João Emanuel só pretende zerar a história a partir do capítulo 100, quando finalmente Carminha descobre toda a intenção vingativa de Nina/Rita. Nessa "primeira fase", tudo ainda parece estar fora do lugar. Grande parte dos cenários são obscuros, com uma luz densa, dramática e um constante clima de suspense no ar. Esta ambientação cênica é um dos trunfos da direção precisa e intensa de Ricardo Waddington, que também assinou a condução pragmática de "A Favorita". Ricardo também conseguiu esse estranhamento no seriado sobrenatural "A Cura". Na produção, novamente assinada por João Emanuel, o diretor ousou em tomadas precisas e cinematográficas de Minas, brincando com luzes, cenários e texturas para tentar entregar um produto televisivo com imagem irretocável. E conseguiu.
Nessa dobradinha cúmplice e na linguagem ágil em texto e imagem, João Emanuel e Ricardo parecem mão esquerda e direita na regência da mesma orquestra de atores, cenógrafos e afins. E nada escapa da intenção de perturbar. Mesmo quando a trama "respira", na direção da comédia, ela incomoda. No farto núcleo suburbano, o tom acima de grande parte dos personagens retrata de forma cínica os habitantes do fictício bairro Divino. Decoração exagerada, vozes esganiçadas, gargalhadas altas, periguetes em altíssimos saltos de lojas populares e embaladas a vácuo em figurinos minúsculos desfilam pelos botequins da cidade cenográfica retratando a periferia do Rio sem censuras ou retoques.
Enquanto o capítulo 100 se aproxima com todas as mudanças e reformulações, João Emanuel começa a dar pistas de grandes guinadas da história que se mantém com média de 38 pontos na audiência. Uma delas está prestes a acontecer. Tufão, de Murilo Benício, será flagrado traindo Carminha com Monalisa, de Heloísa Périssé. No entanto, logo depois, ele se declara apaixonado por Nina/Rita.
Na tentativa mais requintada do humor, no núcleo mais rico, Cadinho, de Alexandre Borges, se perde em caretas e armações para tentar enganar as três mulheres, vividas por Camila Morgado, Débora Bloch e Carolina Ferraz. Mas a comicidade prometida se mostra de forma rasa e se transforma em caricatura, mesmo diante do texto sarcástico e das boas tiradas do autor.
"Avenida Brasil" segunda sexta, às 21h, na Globo
LEGEEENDA: Adriana Esteves (Carminha) e Débora Falabella (Nina) em "Avenida Brasil"
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