Andrea Alves
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Nem o distanciamento físico impede que duas almas criativas de ligação visceral deixem de fazer florescer sua arte. Andréia Nhur estava em pesquisa de dança na França quando começou a pensar no momento histórico em que sua mãe, a bailarina Janice Vieira, viveu como dançarina contemporânea. Após troca de email e cartas, mãe e filha começaram um novo processo de pesquisa em dança e o resultado disso é o Vis-à-Vis, o novo espetáculo experimental que elas apresentam neste sábado, às 19h, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, integrando a programação da mostra experimental III Plataforma Estado Dança. Depois de elaborar uma trilogia que retrata a visceral relação entre mãe e filha, com as obras "Swan Corpo Adaptado" (2007), "O Cisne, minha mãe e eu" (2008), e "Linhagens" (2009), as bailarinas Janice Vieira e Andréia Nhur levam aos palcos um pouco mais da própria história, mas dessa vez o contexto político entra em cena. "Swan era um solo que relatava a relação mãe e filha e os outros espetáculos, que fizemos juntas, eram uma continuação desse tema", conta Andréia. "Uma trilogia muito umbilical, especialmente o Linhagens", observa Janice, "mas com uma preocupação para que a relação mãe e filha não aparecesse de uma forma piegas". A proposta agora com Vis-à-Vis é outra e nasceu despretensiosamente fazendo um resgate das memórias de mãe - Janice viveu a repressão dos anos 60 e 70 - e filha - Andréia passou a infância no momento em se espreitava a liberdade nos anos 80. A proposta do Vis-à-Vis, palavra francês para a expressão frente a frente em português, é clara e promove que as artistas olhem para si mesmas através de épocas passadas e distintas. "Queria saber como esses períodos conversavam entre si", diz Andreia.
Processo criativo: observando memórias
Foi na França, onde esteve por 4 meses no ano passado desenvolvendo suas pesquisas para o trabalho acadêmico, que Andréia começou a levantar algumas questões políticas relacionadas ao tempo em que Janice viveu e atuou como bailarina, especialmente de quando fazia parte do Grupo Pró-Posição, fundado em 1973 por ela e pelo bailarino Denilto Gomes, com o intuito, como sugere o nome, de marcar uma posição em relação ao movimento político daqueles anos. Grupo, aliás, que foi retomado quando surgiu a oportunidade de mãe e filha atuarem juntas no mesmo cenário de dança contemporânea. Embora o contexto não seja mais somente o ser politicamente engajado, esquerdista, como era quando nasceu, elas dizem achar interessante que seja sim uma continuidade, já que ele nunca deixou de ser o grupo que era. "Eu fico um pouco incomodada com o descarte fácil daquilo que já foi. Por isso dar continuidade ao Pro-Posição é lançar um olhar memorial em respeito ao que ele foi", comenta Andréia.
O embrião de Vis-à-Vis foi crescendo por meio da troca de emails e cartas. Tão rápido que Janice foi a Paris para concretizar, com a filha, a experimentação do que elas já imaginavam. Lá elas contaram com a colaboração de Isabelle Launay, também pesquisadora de dança e professora da Universidade Paris 8 e que já tinha visto a apresentação do espetáculo "O Cisne, minha mãe e eu", quando as bailarinas se apresentaram numa mostra de dança em Recife. Estar em outro ambiente para colocar na dança experimental aquilo que duas pessoas distintas viveram em contextos diferentes, num mesmo país, foi fato complementar ao processo criativo. Ainda mais quando se está em Paris, cidade que é inspiração para resgates da história da arte, já que mesmo em períodos de guerra e repressão, seus artistas não paravam de criar. "Lá tudo começou a desenrolar", contou Janice. Mãe e filha emprestaram da França muitos elementos e referências para dar o tom ao Vis-à-Vis. "Paris pulsa", disse Andréia. Algumas das cartas que trocaram enquanto estavam distantes também estão em cena - aliás, são elas o detalhe mais evidente da relação mãe e filha nos espetáculo.
Sem censura
Ao resgatar as memórias vividas por elas para traduzi-las na difícil linguagem da dança contemporânea experimental, Andréia e Janice deixaram de lado o purismo e se permitiram colocar outras linguagens das quais fazem parte. Andréia, filha de Roberto Gill Camargo, diretor de teatro, comenta que essa arte herdada do pai também é muito forte em sua formação. Passar pelas fronteiras dessas vertentes, além de surgir de forma espontânea, teve o aval da própria mãe e bailarina. "A Andréia questionava algumas cenas, mas eu falei para ela que não se censurasse, como antigamente censuravam nossas invenções. Falei que ela fosse mesmo mais ousada". Graças à falta de limite, o espetáculo mescla momentos de delicadeza, como quando elas se entrelaçam com as mangas de suas camisas, e de contestação, quando a mesma suave e leve vestimenta em Janice se transforma em camisa de força para lembrar os momentos de censura dos anos 70 - e que faz referência a um espetáculo que ela apresentou naqueles anos de ditadura. As bailarinas dançam e interpretam, Janice toca acordeon, Andréia dança Michael Jackson e canta Summertime. Com tanto talento, nem precisam de muitos recursos - com seus domínios de voz e movimento elas se bastam na cena.
É a quarta vez que as bailarinas e pesquisadoras do movimento e da dança são contempladas pelo Programa de Ação Cultural (ProAc), que por ser um projeto da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, abre muitas portas que as apresentações aconteçam em várias cidades, fora e dentro do Estado, especialmente na capital, onde há um público muito fiel ao estilo de dança contemporânea. E é o terceiro ano que as bailarinas foram convidadas a participar da mostra Plataforma Estado Dança, que esse ano chega a sua terceira edição. Vis-à-Vis tem pré-estreia no evento paulistano, com iluminação de Roberto Gill Camargo, mas não se sabe ainda quando será apresentado ao público sorocabano. Janice lembra que ainda precisa ser apresentado ao olhar da pesquisadora e orientado Isabelle Launay. "Pode ser que ainda tenha algumas alterações". Só depois do crivo da orientadora que novas apresentações serão programadas. Enquanto isso, Andréia e Janice voltam a apresentar em Sorocaba, no segundo semestre no Teatro do Sesi, o espetáculo "Linhagens", que ainda pode ser bem explorado pelo público sorocabano.
Nesses trabalhos tão intensos quanto a própria relação mãe e filha, não são raros os momentos em que Janice se reconheceu na ansiedade de Andréia. "Mas ela é uma edição melhorada", fala a mãe esboçando um sorriso largo. "Ela é perfeccionista, estuda muito, dança muito bem. Ela é uma superação", continua, deixando encabulada a filha nutrida da sabedoria da grande bailarina e artista, evidenciada numa das cartas que trocaram e que foram levadas ao palco. Janice escreveu à Andréia que o processo de criar não precisar se basear em alguma causa. "A poética é atemporal. Por não levantar bandeira, é o mais político dos atos".
Serviço
Vis-à-Vis
com Janice Vieira e Andréia Nhur
Sábado, às 19h
Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista - São Paulo)
Ingressos: R$ 15 e R$ 7,50 (meia)
Informações: (11) 3288-0136
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