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15/07/2012 | IMIGRANTES

Sonho comum: buscar os os familiares que ficaram

Notícia publicada na edição de 15/07/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 002 do caderno E - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

 

Apesar do sorriso fácil, os haitianos que estão em Sorocaba também têm a angústia de estar longe da família. No Brasil, os haitianos enfrentam dificuldades para conseguir contato com quem ficou na devastada Porto Príncipe. Com o cartão telefônico em mãos, Moricene Charles, 22, comprova a fala e reclama: as unidades vão embora muito rápido. Tempo suficiente apenas para falar "oi, estou bem". A saudade mesmo, diz, não dá para matar. A principal ferramenta, então, é a internet e o prédio do Sabe Tudo do bairro Central Parque, onde estão morando, é o ponto de acesso à grande rede para contato com a família.

 

A maioria do grupo é composta por homens. Eles deixaram filhos e esposas para trás. A ideia de voltar para o Haiti é apenas para rever familiares e para buscar os mais próximos para trazer para o Brasil. Diejuste Antoine, 30, conseguiu trazer a esposa Miliane Ciceron, 24 e o irmão Antoine Jean Ronald. Ela está grávida de três meses. "Somos brasileiros já", afirmou Diejuste. A permanência do casal no Brasil está garantida pois a criança nascerá no País. Mas isso não leva sossego para Diejuste que deixou outros dois filhos no Haiti e, assim como os outros, planeja trazê-los para cá. Além da questão burocrática o custo é outro entrave. Cada passagem para o Brasil custa entre 1,5 mil a 1,7 mil dólares, ou seja, algo em torno de R$ 3 mil, fora outros gastos da viagem.

 

O mesmo dilema da distância é enfrentado por Antoine Jean que deixou três filhos e a esposa no Haiti. "Precisamos alugar uma casa, mas estamos com problemas na documentação", afirmou ele. Por serem estrangeiros não conseguem fiadores exigidos pelos contratos de locação. Assim como os outros, Antoine Jean está trabalhando na construção civil. Até conseguir vencer a barreira burocrática para alugar um imóvel, o haitiano mata a saudade com algumas fotos que trouxe da família e guarda dentro do dicionário Francês-Português que carrega sempre consigo para estudar a língua portuguesa.

 

 

Adaptação

 

 

Além da decepção de não conseguir ajudar a família que ficou, estar em um país diferente com uma língua ainda não dominada, a condição de estrangeiro, às vezes, pode ficar ainda mais difícil. Os haitianos contam que quase não saem de casa, o motivo principal é o medo. "Medo de quê?", questiona a repórter. "Medo de assalto, medo da polícia", conta Antoine Jean. No início do ano ele foi abordado por policiais militares enquanto procurava emprego.

 

Antoine Jean lembra que sentiu muito medo. Segundo ele, os policiais saíram da viatura já com a arma em punho. "Eu tremia apenas. Entendi que era para colocar as mãos para cima. Não conseguia falar que era estrangeiro. Senti muito medo." Hoje ele ri da situação, mas continua, "se eu tivesse corrido, podia levar um tiro. E do jeito que eles chegaram, era normal eu pensar em correr". Fora esse incidente, o grupo reclama do frio do inverno brasileiro. Alguns desistiram de ficar no Chile por conta das baixas temperaturas e não imaginavam que o Brasil também pudesse ter um inverno rigoroso. (C.S.)

 


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