A readaptação televisiva do clássico literário "Gabriela, Cravo e Canela" chegou fazendo barulho demais. É claro que o sucesso conquistado em 1975 e o centenário de Jorge Amado, comemorado dia 10 de agosto, foram decisivos na escolha da obra para ocupar a retomada da faixa de novelas às 23h da Globo. Mas Juliana Paes, pelo que se viu até agora, mesmo fazendo um bom trabalho na pele da retirante brejeira que tem os homens de Ilhéus a seus pés, definitivamente não consegue repetir o feito de Sônia Braga. Há 37 anos, quando deu vida à personagem-título da primeira versão, a atriz estabeleceu uma relação tão forte com o trabalho que até hoje é associada à personagem. Mas agora, sob o texto do autor Walcyr Carrasco e a interpretação de Juliana, o papel sai perdendo na disputa de atenção com outros personagens do folhetim. Não à toa, a audiência empolgante de 30 pontos de média conquistada no primeiro dia não tardou a cair, estabilizando-se abaixo dos 20 pontos.
Mesmo às 23h, Walcyr Carrasco mantém seu estilo cômico. Algumas de suas sequências mais parecem esquetes com diálogos que se viam bastante em suas tramas das 18h e 19h. Como em muitos momentos em que Marcelo Serrado contracena com Fabiana Karla, na pele do malandro Tonico e a engraçada Olga. Ou até mesmo nas cenas mais leves no bar de Nacib, de Humberto Martins. O ator, inclusive, está muito bem na pele do turco, mostrando a mesma maturidade e segurança em cena que o transformaram em um dos principais nomes do remake de "O Astro", no ano passado.
Os primeiros capítulos parecem ter sido colocados no bolso por Leona Cavalli. Na pele da lutadora Zarolha, a atriz conseguiu não só se destacar, mas também assinou, aos 42 anos, um contrato para posar nua. E seu afastamento, apesar de já previsto, parece mesmo ter sido fundamental para o andamento da trama principal. Do contrário, corria-se o risco da prostituta do Bataclan conquistar mais a torcida dos telespectadores que a própria Gabriela. Outra atriz que chama atenção é Maitê Proença. O drama enfrentando pela sofrida Sinhazinha com o marido Jesuíno, de José Wilker, e seu romance com o dentista Osmundo, de Erik Marmo, é um dos pontos altos da história. Com a morte deles, prevista para os próximos capítulos, a novela perde também suas cenas mais bem cuidadas, já que sempre equilibram o romantismo e a sensualidade que a trama pede e o horário permite.
As cenas de sexo e nudez não chegam a ser ousadas, mas fazem a diferença. Com tantas cobranças em função da classificação indicativa da novela das nove, tratar temas adultos com sequências também voltadas para esse público acabou virando uma tarefa da faixa das 23h. Mas, nesse caso, o que surpreende é o fato de não ser Juliana Paes a principal estrela desse festival de sedução. Até Bruna Linzmeyer, que acabou de chegar à cidade, empolga mais com a insossa dança de leques de sua personagem, a dançarina Anabela.
Gabriela, terça a sexta, às 23h05, na Globo
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