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Se você tem algo mais prazeroso para fazer, faça e desista de ler este texto; se não tem, veja as primeiras frases dos romances citados a seguir, tente ler o texto integral e compare o resultado com todas as outras alternativas de lazer e entretenimento que você tem à disposição:
“Rubião fitava a enseada eram oito horas da manhã.” (Quincas Borba, de Machado de Assis).
“Era um dia frio e ensolarado de abril, e os relógios batiam treze horas.” (1984, de George Orwell).
“Arfando e luzidio, de pernas abertas entre os espaços do vagão no ramal de Enduro, Junta caminhou pelo corredor para chegar-se no grupo de três mulheres, alguns quilômetros antes do trem chegar a Santa Maria.” (Junta-Cadáveres, de Juan Carlos Onetti).
“Antes de entrar no automóvel olhou por cima do ombro para ter certeza de que ninguém a espreitava.” (Notícia de um Sequestro, de Gabriel Garcia Márquez).
“Encontrei Dean pela primeira vez pouco depois que eu e minha mulher nos separamos.” (On The Road - Pé na Estrada, de Jack Kerouac).
Proposta feita, vamos às razões. Milhares de estudantes acabam de passar pela maratona dos vestibulares e um dos desafios é a leitura de livros (a maioria, romances) que compõem listas e mais listas, interessantes umas, outras nem tanto. Com inúmeros livros para ler em pouco tempo, muitos se desesperam e recorrem aos resumos. Nesse clima de obrigação, o processo de leitura se torna torturante, causador de estresse, destituído de qualquer possibilidade de atração. E, sem prazer e entusiasmo, nada funciona bem.
Ninguém (a não ser em casos de exceção) anda de bicicleta, vai à praia ou à balada se não gostar disso. Tomando esses exemplos, da mesma forma nem todos gostam de bicicleta, de praia ou da balada de fim de semana. Estes ficam livres para recorrer a alternativas que proporcionem bem-estar. Gostar de ler ou ser indiferente aos livros está no mesmo nível dessas e de outras atividades humanas. O problema é que os vestibulares impõem a obrigação da leitura para uma massa de jovens que é heterogênea - inclui aqueles que têm paixão pela leitura e outros que detestam ou simplesmente ignoram os livros.
Os que amam os livros sabem que a partir da primeira frase de Quincas Borba (“Rubião fitava a enseada eram oito horas da manhã.”) vibrarão com a chance de recriar o Rio de Janeiro da segunda metade do século 19, poderão se emocionar com Rubião e suas loucuras e até se apaixonarão por Sofia, a musa do personagem central.
Os que têm paixão pela leitura sabem que, ao abrirem “1984”, depararão com um mundo sombrio inspirado em governos totalitários e que a realidade vivida por Winston Smith, o personagem central, contém mais terror do que muitos filmes do gênero. Sabem que “Junta-Cadáveres” oferece uma densidade humana que transforma a leitura numa experiência de vida. Também sabem que “Notícia de um Sequestro”, um romance-reportagem, contém mais verdades sobre a Colômbia do que muitas notícias que descrevem aquele país. E não têm dúvida de que, com “On The Road”, Jack Kerouac pega o leitor pelo colarinho e o leva a uma impressionante viagem pelos Estados Unidos de um jeito que só ele mesmo (um ícone da geração beat) saberia fazer.
Os livros são multifacetados. Um único volume pode conter muito mais do que o leitor busca. É o que explica alguém dizer que determinado livro foi uma surpresa. As páginas se sucedem e a cada virada o que surge é mais do que uma história. Cada livro é uma viagem ao fundo do tempo, aos mais diferentes lugares, aos mistérios da alma humana. O estilo do escritor, a técnica narrativa utilizada, a divisão em capítulos (ou não), o ritmo, a conclusão perturbadora e às vezes fora do comum, tudo isso dá uma proporção gigantesca à leitura. Que é um ato solitário, mas até mesmo isto é compensado pela possibilidade de compartilhar as emoções dos personagens.
Os livros têm a incrível capacidade de revelarem a identidade de um grupo social, um país, uma geração. “Grande Sertão: Veredas” (Guimarães Rosa) e “Os Sertões” (Euclides da Cunha) são reflexos da identidade brasileira quem é capaz de negar? “Crime e Castigo” (Fiódor Dostoievski) e “Guerra e Paz” (Leão Tolstói) contém muito mais da alma dos russos do que qualquer curso sobre a Rússia. Além disso, proporcionam a ilusão de uma profunda viagem a Moscou e aos campos de batalha das guerras devastadoras. “Enquanto Agonizo”, de William Faulkner, também leva o leitor para o sul dos Estados Unidos sem que ele precise se deslocar. “Morte a Crédito”, de L.F. Céline, é um espanto pelas infinitas possibilidades de linguagem e de transposição da realidade para a ficção. E Honoré de Balzac, na sua vasta “Comédia Humana”, revela muito mais da França e do homem europeu do século 19 do que muitas aulas de história.
Quanto aos que não gostam dos livros, muito bem, têm esse direito. O prazer da leitura não é para todos. Talvez encontrem mais sentido em outras alternativas. Uma pena. Perderão a oportunidade de ler os grandes romances, criações que equivalem a verdadeiras experiências de vida.
Se você acha que não gosta de ler e chegou até aqui, veja que surpresa. E eu não sou nada perto de Machado de Assis. Imagine então o mundo alucinante que o espera se você mergulhar nos livros envolventes de Machado e dos outros gigantes da literatura brasileira e universal.
O encanto dos textos, das histórias, das técnicas narrativas, das possibilidades de viver outras vidas e emoções (e em todas as épocas e partes do mundo), tudo isso vai levá-lo à descoberta de que há mais prazer na leitura do que em muitas opções que se apresentam com essa promessa. Depois, você concluirá que a vida é curtíssima se comparada ao tempo que precisa para ler os grandes livros e autores.
Leia, experimente, e você compreenderá porque as bibliotecas, as livrarias, os sebos, as estantes, as caixas de livros, podem ser tomadas como representações da eternidade e do infinito alcance da memória humana.
parabéns, caro Caramujo. Vou recomendar a leitura do seu texto para meus alunos de Jornalismo. Abraço,
Moacir