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120 ANOS DA LEI ÁUREA - [ 13/05 ]

Escravos do preconceito

Leandro Nogueira
Notícia publicada na edição de 13/05/2008 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 1 do caderno B - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
 
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  • ALDO V. SILVA/ARQUIVO Entidades disseminam a cultura afro-brasileira, promovem o orgulho da raça e garantem acesso ao conhecimento

Apesar da Lei Áurea ter sido assinada há exatos 120 anos, os negros continuam escravos do preconceito da maior parte da sociedade. É a opinião de líderes de comunidades que defendem que em Sorocaba, como no restante do Brasil, as oportunidades no mercado de trabalho ainda são limitadas para os negros, seja como conseqüência da falta de acesso aos estudos, ou ainda pior, por simples preconceito com os que conquistaram uma qualificação. No entanto, um ponto positivo destacado no município são as várias entidades que surgiram do trabalho da Frente Negra Brasileira e hoje disseminam a cultura afro-brasileira, promovem o orgulho da raça e garantem acesso ao conhecimento, como por exemplo, bolsas para universidades.

Mas até mesmo na Sorocaba de negros organizados em várias entidades, representantes da raça ressaltam que para a igualdade falta muito. Mais de 90% ainda precisa ser feito, diz Ana Maria Souza Mendes, coordenadora do Núcleo de Cultura Afro-brasileira da Uniso. Ela explica que em busca da solução defende a necessidade do respeito a todos os humanos, independente de qualquer situação, seja ela racial ou não. É preciso que toda sociedade humanize-se e assim acabe com qualquer forma de preconceito, ressalta.

Segundo ela, de todo o Brasil, conhece apenas a experiência de Sorocaba como cidade onde parte dos negros organizados em uma entidade deram origem a diversas com objetivos específicos. Citou que da Frente Negra Brasileira em Sorocaba surgiram várias dissidências como a 28 de Setembro, Fundação Cafuné, Movimento das Mulheres Negras e o Núcleo de Cultura Afro-brasileira. Da Fundação Cafuné, que oferta bolsas de estudo para parte dos negros em universidades, afirmou que nos atuais 18 anos de atividades formou mais de 40 negros no ensino superior, a maior parte na área da educação, e todos estão atuando, ressaltou.

O jornal Folha de S.Paulo publicou ontem que 3,5% dos executivos de empresas do país são negros, de acordo com pesquisa do Ibope e do Instituto Ethos. Ana Maria Mendes afirmou que desconhece esses números e em Sorocaba prefere abordar situações reais do que estatísticas, já que os números podem oscilar de acordo com os critérios adotados para o levantamento. Sobre o mercado de trabalho em Sorocaba, disse que o negro é muito bem aceito no chão de fábrica e há uma parte deles em cargos de chefias, já em cargos de gerência isso é raro. Sem citar nomes, declarou que nos anos 90 havia um negro em cargo de chefia em uma empresa sorocabana que apesar da vontade de contratar negros qualificados, relutava, pois temia perder o próprio emprego. Sobre alguns casos de negros muito bem sucedidos que ocupam cargos em magistratura por exemplo, diz que esses são casos de exceção à regra.

A historiadora, educadora, diretora do Centro Cultural Quilombinho e integrante da secretaria anti-racial da Apeoesp, Andréia Oliveira, chama a atenção para a falta do conhecimento da origem do negro no Brasil. Reclama que apesar da lei federal 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história africana e a cultura afro-brasileira nas escolas brasileiras, isso ainda está muito aquém. Conseguem explicar sobre o Egito sem fazer relação com a raça negra, ressalta. Observa que a origem do negro no país é apenas conhecida como a da escravidão e que ainda hoje as crianças negras se vêem como descendentes dos escravos acorrentados, sem fazer qualquer idéia de como os ancestrais viviam na África, como e porque chegaram ao Brasil.

Eventos comemoram a Lei Áurea

A praça Castro Alves, em frente à Rodoviária, sedia hoje apresentações de grupo de samba de roda, maracatu, capoeira e ato cívico em comemoração aos 120 anos da Lei Áurea no Brasil. Das 10h às 22h será realizada a Feira Afro com a comercialização de produtos artesanais como bijuterias e bolsas feitos nos Centros de Referência Social (Cras). Está prevista a participação das entidades Quilombinho, Conselho do Negro, Associação Raízes, Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e Ong Luminatt.

Muito trabalho, pouca conquista: juntando os dois pólos. Esse será o tema do ato cívico com a presença do prefeito Vitor Lippi, previsto para ser promovido a partir das 18h. Haverá homenagem à mãe negra representada por Ondina Seabra, e uma mãe branca, Mitiê Kawamoto Ruiz. Participarão o professor e poeta Rui Santos, e o Coral do Momunes.

Sorocaba também será representada pela secretária da Cidadania, Maria José de Almeida Lima, no Seminário promovido pelo Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP). Mazé fará palestra sobre Programas e Ações para a Promoção Social da Mulher Negra, que acontece a partir das 9h30, na Sala da Congregação da universidade.

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