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Há cerca de um mês escrevi brevemente aqui sobre o filme Os Falsários, que trata da vida do falsificador Salomon Sorowitsch no campo de concentração de Sachsenhausen. É incrível como o holocausto e o nazismo, além do terror que instalou, principalmente durante a II Guerra Mundial, serviu de inspiração para tantos filmes que tratam do holocausto em seus roteiros. Talvez por ter tido uma vida breve quanto aterrorizante, somado ao número de ótimos artistas de diversas áreas e que vêm de famílias judias, o nazismo foi mostrado insistentemente no cinema para não deixar dúvidas sobre a monstruosidade que foi sua existência.
A verdade é que o nazismo foi mesmo cinematográfico, com dimensões hollywoodianas, impensável por mentes sãs e, por sorte, teve fim com a morte de Hitler e o fim da II Guerra Mundial.
Chegando a Romênia pelo norte conheci o Memorial das Vítimas do Comunismo e da Resistência, o qual visitei com o mesmo interesse com que havia visitado o Campo de Concentração de Dachau, na Alemanha. E à medida que eu via imagens, documentos e lia e conhecia a respeito da história daqueles anos de repressão vividos na Romênia, mais percebia o quanto os dois regimes autoritários se assemelham.
Eu, meio encucado, resolvi perguntar a um romeno que estava por ali o que achava desta comparação e ele me disse então: Meu amigo com aquele sotaque inglês carregado de sangue latino o nazismo e o comunismo são a mesma coisa. Parece até loucura, mas vejo que loucura mesmo foi eu ter passado tanto tempo sem estudar a semelhança entre regimes totalitaristas em meus anos de estudo primário e secundário.
Ainda que hoje os estudos do Memorial apontem para 93 mil pessoas que tiveram suas passagens por prisões e campos de trabalho forçado no período entre 1945-1989 documentadas, os estudiosos acreditam que este número esteja na casa de 2 milhões de pessoas (só na Romênia), já que documentos foram destruídos antes do fim do regime. Passando por apenas 3 países no Leste Europeu (Hungria, Romênia e Eslovênia) é muito fácil ver algumas das marcas deixadas por anos de comunismo, a começar pelas moradias, os prédios todos muito parecidos e sem ornamento, com muito concreto e mais concreto.
Na primeira página do Memorial de Sighet na internet, lê-se o seguinte: A grande vitória do comunismo, uma vitória dramaticamente revelada apenas depois de 1989, foi criar pessoas sem memória (...)
Em quase 50 anos de vida na Romênia e ainda vivo com total ‘liberdade em outros países, esta frase confirma que o crime do comunismo é arrasar a cultura do povo por onde ele passa, tentando fazer crer que ideais revolucionários são mais importantes do que o auto-conhecimento e a liberdade. Em tempo de relativizar crimes e criminosos, diminuindo o impacto de medidas ditatoriais que são frequentes na América Latina, sou obrigado a sugerir que o nosso presidente Lula venha visitar o Memorial de Sighet, para que um dia ele não diga que não sabia de nada quando diz Amém para ditadores latino-americanos.
p.s: sugiro a leitura do ótimo artigo de Ives Gandra, publicada em 3 de setembro aqui no Cruzeiro: ‘A Era das Contradições.
p.s2.: na internet, www.memorialsighet.ro.
O músico sorocabano Guto Brinholi, que está morando na Alemanha, escreve semanalmente para o suplemento Turismo, mostrando lugares interessantes de se conhecer no Velho Mundo.
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