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Vila Maria Zélia - [ 08/12 ]

Teatro, Turismo e História no mesmo endereço

Fernanda Souza
Notícia publicada na edição de 08/12/2009 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 4 do caderno Turismo - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
 
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  • Arquivo Hysteria foi apresentada em 2007 na Usina Cultural

Não há como ficar indiferente à energia que emana da Vila Maria Zélia, localizada na Zona Leste de São Paulo, principalmente quando somos imersos neste espaço pelas produções do Grupo XIX de Teatro. A antiga vila operária, construída em 1917 por Jorge Street para atender as necessidades dos funcionários da Companhia Nacional de Tecidos de Juta, além de ser um espaço cinematográfico (que, inclusive, já foi realmente utilizada como tal em diversas produções), abriga há cinco anos o Grupo XIX de Teatro, transformando literalmente o espaço em cultura e arte viva.

O elenco formou-se a partir de um curso de Direção para Processos Colaborativos, ministrado por Antonio Araujo (Grupo Teatro de Vertigem), na Escola de Comunicação e Artes (ECA/USP), e, desde o começo, tinha foco nas questões do século XIX. Para tanto, uma das necessidades do grupo, dirigido por Luis Fernando Marques, era encontrar um espaço que dialogasse diretamente com suas encenações. Sendo assim, em 2004, o grupo, apoiado pela Lei de Fomento, instaurou-se no antigo armazém da Vila Maria Zélia e criou ali seu projeto de Residência Artística que prevê: as montagens do grupo, oficinas abertas ao público em geral e vínculo do grupo com a associação de moradores da Vila.

Nos espetáculos do grupo, o espaço não colabora no sentido de cenário simplesmente, pelo contrário, os espetáculos são construídos através do espaço, levando em consideração a memória ali presente, as pessoas (moradores da Vila) que rodeiam a criação, e inclusive as histórias dos moradores (que colaboram muitas vezes com acessórios e/ ou figurinos utilizados nos espetáculos). Ou seja, o que é produzido cenicamente pelo grupo tem uma ligação intrínseca com o que os rodeia.

Até o momento, o grupo conta com um repertório de três espetáculos: Hysteria (2002), que trata o tema das mulheres consideradas como histéricas na passagem do Brasil rural ao Brasil urbano, Hygiene (2005), com foco no processo de higienização da virada do século onde se propunha abolir com os cortiços, e Arrufos (2008), que problematiza as relações amorosas. Mesmo quando os espetáculos são levados a outros espaços, diferentes da Vila, há a preocupação de analisar a arquitetura do espaço e verificar se condiz com a proposta do espetáculo. Em Sorocaba, já fomos presenteados com a apresentação de Hysteria na Virada Cultural de 2007, na ‘Usina Cultural Ettore Marangoni‘, outro importante e belíssimo prédio histórico de nosso país, que melhor abarcou o espetáculo.

A vontade do grupo em trabalhar nos espaços históricos ultrapassa a questão estética; voltar o olhar às ruínas da cidade é uma questão política e sociológica. Como traduz o diretor de arte Renato Bolelli Rebouças ‘retornar ali e produzir arte é um alerta, um chamado, um protesto. Levar cada vez mais gente para visitar e conhecer sua história, para nós (Grupo XIX de Teatro), é um grande valor‘. Este trabalho pode ser visto através das lutas jurídicas do grupo, intencionado a trazer melhor visibilidade e melhores condições aos moradores daquele conjunto habitacional, levanta a bandeira inclusive para fora do país, haja vista quando foram representar o país no Ano do Brasil na França (2005) e não se contentaram em levar apenas um belíssimo espetáculo (Hysteria), levaram também fotos, fatos e documentos sobre a vila, conseguindo assim apoio também da comunidade européia, além da gratidão dos moradores, por observarem que eles, os atuantes do Grupo XIX de Teatro, estavam ali com intenções políticas de dar ênfase àquele espaço, não apenas como ação social, mas de desenvolver relações de pertencimento, de co-habitação.

Por tudo isso, vale a pena ficar atualizado sobre os espetáculos encenados na Vila Maria Zélia pelo Grupo XIX de Teatro. Outra dica importante é procurar chegar antes do horário do espetáculo para, como muitos espectadores, passear pela Vila e presenciar um pouco da história de nosso país, percebendo que aqueles moradores e aquela vila também fazem parte da nossa memória pessoal, pois aquele espaço, aquela paisagem, segundo Bolelli: ‘lembra a de nossos antepassados, pais e avós, nos redimensiona para um tempo pessoal. Aí então percebemos que aqueles moradores são a nossa história também, poderiam ser nossos parentes e são, pois são a história do país.

Serviço:

Grupo XIX de Teatro: Rua dos Prazeres,nº 362, esquina com a rua Cachoeira.

Telefone: (11) 8283-6269

Fernanda Souza é aluna do 6º período de Teatro/Arte-Educação da Uniso e escreve a convite do curso de Turismo (fernandasouza.teatro@gmail.com)

Este artigo é parte da pesquisa de Iniciação Científica intitulada ‘Reflexões acerca do papel do espaço cênico na construção das relações espetaculares pós-dramáticas‘ orientada pelos professores José Simões e Ingrid Koudela.

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Comentários

  • Fernanda Souza [ 14/12/2009 ]

    Pronto, Sr. Edelcio, o endereço já foi corrigido pelo Jornal, muitoooo obrigada pela correção e pelo comentário. Pra quem não conhece o seu Dedé, devo dizer que vale a pena sentar e tomar um café com ele, ouvir as histórias da Vila por quem conhece tãooo bem aquele espaço e perceber o quanto ele se emociona em falar. É conhecimento e puro encantamento!

    Obrigada (e no meu artigo de conclusão de curso, que é maior, também cito o senhor viu)!

    Ah e obrigada a todos que estão comentando! Muito bom ler palavras tão doces!

    Feliz!

  • edelcio pereira pinto [ 14/12/2009 ]

    Oi Fernanda,PARABENS pela reportagem,me deixou muito feliz,sou o Historiador deste espaço,mas so gostaria de retificar o endereço correto da minha Querida Vila Maria Zélia,que na verdade é Rua dos Prazeres,n* 362,esquina com a rua Cachoeira,abraços fraternos,Seu dedé.

  • Fernanda Brito Rodrigues [ 10/12/2009 ]

    O grupo XIX faz um trabalho que muitos deveriam fazer, que é, além do teatro bom e consistente que realizam, o resgate da memória física de uma cidade. Isso é essencial, e cada vez mais penso que é o papel do teatro, já que parecem ter esquecido o quanto a memória é importante, é o de se instalar nesses lugares e guiar o público nessa viagem ao passado, mesmo que seja apenas com sua estrutura física.

    O grupo e a Fernanda estão de parabéns, o grupo por esse trabalho de "utilidade pública", e a Fernanda por traze-lo ao nosso conhecimento.

    Vale a pena conferir o trabalho do grupo!

  • MATHEUS MARTINS [ 09/12/2009 ]

    UM TEXTO MARAVILHOSO. PALAVRAS BEM COLOCADAS E GOSTOSO DE LER.

    FERNANDA VC ESTA DE PARABÊNS. ESTA CADA DIA

    DANDO MAIS ORGULHO PARA SEUS AMIGOS!!!!!

  • Delaine Ferreira [ 09/12/2009 ]

    Fiquei muito interessada em conhecer o trabalho desse grupo, principalmente depois de ler esse artigo, (e ter prestigiado a defesa do mesmo no espaço acadêmico), acredito que a autora chegou ao seu objetivo, instigar a curiosidade do leitor e divulgar um trabalho artístico com responsabilidade.

  • Fábio Augusto Fiorelli [ 09/12/2009 ]

    Também sou da mesma opinião. O trabalho deste grupo é maravilhoso, assim como o artigo de minha amiga Fernanda. Maravilhosa pesquisadora.

    Fiquei muito feliz em ver o seu artigo publicado no jornal.

    Parabéns minha amiga.

  • Daniel Conti [ 09/12/2009 ]

    Parabéns pela matéria! Muito oportuna, pois o grupo XIX é realmente muito bom, vem se destacando nos últimos anos pela sua produção artística e pela seu trabalho junto a Vila Maria Zélia.

  • Dario Jose Paes Pregnolato [ 08/12/2009 ]

    Acho espetacular o trabalho deste grupo, o profissionalismo e determinação que tem com o trabalho e a arte , e Fernanda essa aluna no 6º Período deixa isso bem claro e esta de parabéns.

    Fico feliz por ter lido esse artigo que deixam bem claro o trabalho deste grupo.

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