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MAIS CRUZEIRO - [ 19/07 ]

Arte como forma de protesto

José Antônio Rosa
Notícia publicada na edição de 19/07/2009 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno B - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
 
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Há dois anos a artista sorocabana Letícia Barreto viajou para Portugal, onde, a convite de uma amiga, passou a lecionar em escola de Lisboa. A oportunidade, ela conta, surgiu por uma dessas obras do acaso.

Em 2006, Letícia estava perto de ir a Itália para fazer um curso de formação, quando recebeu um e-mail de pessoa que não conhecia. A remetente da mensagem contou ter obtido o seu contato por meio de amigas e propôs um intercâmbio virtual a fim de saber como seria a aplicação prática da metodologia que ela aprendera naquele país.

As conversas seguiram por alguns meses e resultaram no convite para que Letícia seguisse para Portugal a trabalho. Na época, eu tinha acabado de reformar meu atelier, e não pensava em viajar, mas certas oportunidades aparecem uma vez na vida. Resolvi, então, aceitar.

A artista, porém, não esperava descobrir um lado pouco conhecido do jeito de ser dos portugueses, ou, pelo menos, de uma minoria da população local que alimenta o preconceito e a desconsideração para com os estrangeiros, particularmente as mulheres.

O desgaste pelo qual passou, produziu efeito contrário ao que seria esperado; ao invés de ceder às pressões, Letícia decidiu expressar sua indignação da forma como melhor sabe: pela própria arte.

Produziu uma série de auto-retratos a carimbo. Trinta deles exibem imagens de mulheres sobrepostas com tarjas onde são lidas expressões como clandestina, excluída, estrangeira. Além de externar o protesto, a ideia acabou dando o mote para o projeto de pesquisa para o mestrado teórico-prático de Letícia Barreto.

Ela entrevistou, e continua a entrevistar, personagens que sofreram (ou ainda sofrem) os mesmos problemas a fim de desconstruir o que chama de imagem estereotipada que se criou em torno da mulher brasileira.

E por que isso acontece?, perguntou o Mais Cruzeiro à artista. Letícia tem uma teoria no mínimo surpreendente para o fenômeno: a culpa seria das telenovelas exibidas por lá. Tudo teria começado com Gabriela, adaptação para tevê da obra de Jorge Amado. A produção foi a primeira exibida naquele país.

A história da morena sedutora, vivida na trama pela atriz Sônia Braga, criou, nos portugueses, uma falsa expectativa sobre a identidade feminina. Os antigos colonizadores passaram, desde então, a questionar os valores e costumes brasileiros. Confira, aqui, trechos da entrevista com Letícia Barreto:

Li que você trabalha o projeto de mestrado sobre a imagem da mulher brasileira em Lisboa. A que conclusões chegou até o momento? Qual seria essa imagem?

O trabalho ainda está em andamento, e eu devo fazer mais entrevistas para ter outras visões de mulheres imigrantes. Não existe um padrão. São pessoas de experiências e realidades diferentes. Desde o início, tinha plena consciência de que apenas a minha experiência como imigrante nunca me permitiria compreender o fenômeno da imigracão e a imagem da mulher brasileira aqui em Portugal. Era necessário contatar mulheres das mais diversas origens, experiências e classes sociais para poder começar a compreender o fenômeno da imigração para além das estatísticas disponíveis nos órgãos oficiais e das notícias divulgadas pela mídia; para conhecer de perto a real situação das imigrantes dentro da sociedade portuguesa. Meu estudo não tem a pretensão de fazer uma análise antropológica ou sociológica da imagem da imigrante brasileira.

E como você conduz esse trabalho?

A partir desse contato direto com outras mulheres brasileiras, comecei a compreender o que as motiva a deixar o Brasil e aventurar-se do outro lado do oceano, e conhecer suas experiências na adaptação a uma nova realidade e cultura. Essas entrevistas também têm me possibilitado refletir sobre outras questões importantes: até que ponto os estereótipos relacionados à mulher brasileira afetam sua interação com a sociedade que a acolhe; como a imigrante preserva a sua identidade em meio a uma nova cultura e as suas dificuldades de adaptação e comunicação; além de analisar a condição de gênero como fator de exclusão e/ou vulnerabilidade no contexto da imigração. Os estereótipos mais comuns ligam a imagem da mulher brasileira à mulher leviana, oportunista (que vem à Europa à caça de marido) e prostituída.

Você poderia citar um exemplo prático de dificuldade, preconceito a que as mulheres se submetem em Lisboa?

Eu nunca sofri nenhuma situação constrangedora, mas muitas amigas e conhecidas minhas relatam situações onde foram agredidas verbalmente e até fisicamente pelo simples fato de serem brasileiras, tamanha é a força dos estereótipos relacionados à nossa nacionalidade. Assim, pelo simples fato de passarem na rua, e serem reconhecidas como brasileras, são alvo de insultos; ou, então são mal tratadas em serviços públicos; preteridas em determinados empregos. É óbvio que isso não é algo generalizado, mas infelizmente comum.

Por que isso acontece?

O papel das imagens, principalmente daquelas veiculadas pela mídia é de crucial importância na formação do nosso imaginário em relação à percepção do outro, do estrangeiro. Em relação à mulher brasileira, essa construção do imaginário coletivo tem sido criada desde a colonização e, mais recentemente, através da música, da literatura, e da mídia em geral, mas principalmente da inserção das telenovelas dentro do cenário cultural português. Desde Gabriela Cravo e Canela, a primeira telenovela brasileira a ser transmitida em Portugal, a nossa cultura influencia cada vez mais a cultura do nosso antigo colonizador. Sonia Braga, a Gabriela, com o seu jeito brejeiro e sensual, os seus decotes e costumes ousados, no início chocou, mas, também, ajudou a questionar valores. Não só a arte e a mídia influenciaram os costumes portugueses. A presença brasileira cada vez mais frequente através do contexto migratório, faz com que no dia-a-dia certos valores sejam questionados. Existe, também, um lado perverso da mídia na construção da nossa identidade brasileira, (se é que ela realmente existe), ao reforçar e ressaltar visões estereotipadas e preconceituosas sobre os nossos costumes e valores. Nos jornais é comum encontrar notícias relacionando a comunidade brasileira à prostituição e ao crime.

Você tem entrevistado mulheres brasileiras. O que os relatos revelam?

As histórias e experiência de vida das mais diversas. Algumas só pensam em voltar ao Brasil, outras estão perfeitamente adaptadas e não querem sair daqui. Essa série de entrevistas, deve gerar uma série de desenhos, pinturas e objetos que procurarão traduzir de forma poética a essência desses contatos, aquilo que foge da experiência banal, e que torna universal uma experiência tão particular e pessoal. E, nesse ponto, essas conversas com outras mulheres tem sido também para mim um bocado terapêuticas. Por um lado, pela forte empatia com a mulheres entrevistadas, por perceber tantas coincidências entre as experiências de outras mulheres e minha própria história, sendo que, muitas vezes, me sinto como se aquela história fosse parte do meu próprio percurso. E, por outro, ao ver que em muitos casos certas mulheres viveram situações muito mais difíceis e complexas e que perante a isso, posso sentir-me numa situação muito privilegiada, apesar dos inevitáveis percalços do caminho.

O que você chama de necessidade de sobrevivência emocional, quando justifica o seu projeto de pesquisa?

Desde que cheguei, andei às voltas com a burocracia e o preconceito, pois vir para cá com situação regularizada pelo consulado português em São Paulo de nada adiantou nas filas intermináveis na Loja do Cidadão, nas Finanças e na Segurança Social; nada ajudou em situações cotidianas quando tive minha capacidade intelectual e profissional questionada por conta da minha nacionalidade. E, assim, surgiram os auto-retratos construídos a carimbo. A partir da fotografia do meu passaporte, iniciei uma série de 30 desenhos. A princípio era uma forma de refletir sobre a questão da burocracia e o preconceito que eu vinha sofrendo por ser brasileira. Vistos de longe, os auto-retratos parecem banais. Só de perto mostram a ironia da imagem. Os desenhos são construídos com palavras relacionadas aos estereótipos e expressões mais comuns associados aos imigrantes, em especial os brasileiros. A repetição interminável das palavras, que pela sobreposição constróem o chiaroscuro das imagens, era, para mim, pelo menos no início, uma forma de meditação, uma forma de lidar com meu caos interno, uma válvula de escape cada vez que tinha de lidar com a burocracia ou enfrentava uma situação de preconceito.

Com o trabalho, então, (a reprodução de rostos de mulheres com carimbo) você decidiu extravasar um pouco da angústia (se posso chamar assim) que sentia diante dos problemas que viveu?

Sim, de certa forma essa era a ideia inicial. Era uma maneira de converter essa angústia, essa irritação em algo mais criativo e positivo. Mas, aos poucos, eu fui percebendo o potencial do trabalho então o projeto passou a ser fonte de grande prazer criativo!

Muita gente destaca os bons laços entre brasileiros e portugueses. Artistas, sobretudo, que fazem sucesso no exterior, destacam muito a acolhida carinhosa do povo português. A realidade não seria bem essa?

É extremamente importante não generalizar essas questões. As situações de preconceito existem, isso é fato, mas não podemos concluir que a sociedade portuguesa seja assim. Nesses dois anos eu fiz muitos amigos, das nacionalidades as mais diversas, mais principalmente entre os portugueses. Tenho grandes amigos que me adotaram como parte da família e me ajudaram nos momentos que mais precisei, desde que cheguei aqui. São costumes e maneiras de ser muito diferentes mas podemos aprender muito juntos.

Tive minha capacidade intelectual e profissional questionada por conta da minha nacionalidade. E, assim, surgiram os auto-retratos construídos a carimbo. A partir da fotografia do meu passaporte, iniciei uma série de 30 desenhos (...) Vistos de longe, os auto-retratos parecem banais. Só de perto mostram a ironia da imagem. Os desenhos são construídos com palavras relacionadas aos estereótipos e expressões mais comuns associados aos imigrantes, em especial os brasileiros

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Comentários

  • Ana Letícia Canineo Barreto [ 24/07/2009 ]

    Primeiramente gostaria de agradecer ao Jornal Cruzeiro do Sul e ao jornalista responsável pela minha entrevista José Antonio Rosa por mais uma vez colaborarem com a divulgação do meu trabalho. É com grata satisfação que venho acompanhando o interesse da imprensa no Brasil e em Portugal em relação a esse meu novo projeto. Para além da divulgação do projeto artístico em si, o conceito que resolvi trabalhar mostra-se cada vez mais importante de ser discutido e refletido, dada a grande quantidade de brasileiros que vivem no estrangeiro.

    Apenas gostaria de esclarecer um ponto importante, que provavelmente não ficou claro nas minhas respostas à entrevista. O papel das telenovelas na construção do imaginário sobre a mulher brasileira é importante, mas não é nem de longe fundamental. Muito mais decisivo é sim a forma como a mídia internacional divulga a imagem da mulher brasileira, deturpando nossos costumes e valores.

    Na edição da matéria um ponto crucial acabou por ficar de fora da entrevista original. É de fundamental importância destacar que o Brasil também contribui para a construção dessa imagem estereotipada. Embora o governo brasileiro continue em campanha contra o turismo sexual e o tráfico de mulheres, o Brasil continua a vender a imagem das belas praias com mulheres em fio dental, além da imagem do carnaval, onde as mulheres são apresentadas em trajes sumários. Esse ponto voltou a ser discutido essa semana nos principais jornais e telejornais do país quando da divulgação da quinta edição de uma espécie de guia turístico para estrangeiros, chamado “Rio for Parties” (Rio para festeiros), que simplesmente classificam as mulheres brasileiras como “máquinas de sexo”. A pedido da Embratur, a Advocacia Geral da União acionou a Justiça Federal do Rio para tirar o guia de circulação, já que ele "viola a dignidade humana e expõe o povo brasileiro". Infelizmente a última notícia que tive sobre o assunto foi de que o juíz indeferiu o pedido da Embratur e liberou o tal guia. Medidas como essa só contribuem para estimular a prática da exploração sexual e deturpam cada vez mais a imagem da mulher brasileira no exterior. Todos estes fatores ajudam a criar o imaginário em relação à nossa aparência e caráter e isso contribui na forma como as imigrantes brasileiras são tratadas e vistas no estrangeiro.

    Um forte abraço Leticia Barreto

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