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Por justiça ao direito autoral, esta página deveria ser também assinada pelo dramaturgo, cineasta, pintor, compositor e escritor espanhol Fernando Arrabal. Afinal, ao receber por e-mail algumas questões enviadas pelo Grupo Estado, ele reafirmou a estética irreverente que cultiva tanto na obra como nas aparições públicas: depois de se dizer inspirado pelas perguntas, imaginou um diálogo dele com ele mesmo, em que retrabalhou algumas proposições e criou várias outras, transformando a entrevista em uma delirante ‘autoconversa’, com respostas argutas.
Provocador e irônico, Arrabal chega a São Paulo na próxima semana para o evento Um Certo Arrabal, que ocorre no dia 10, no Instituto Cervantes. Nessa noite, ele participa de um debate ao lado do crítico e pesquisador Sebastião Milaré e do dramaturgo e diretor Wilson Coêlho, que vai autografar seu livro Era Sem Forma e Vazia. Será um encontro disputado - o simples anúncio da vinda de Arrabal provocou uma avalanche de pedidos de reserva, já que a entrada é franca.
"A obra de Arrabal continua contestadora especialmente quando utiliza o humor para apresentar as angústias humanas", comenta o diretor Reginaldo Nascimento, do Teatro Kaus Cia. Experimental e um dos principais responsáveis pela vinda do dramaturgo espanhol - há dois anos, eles se correspondem, especialmente para a preparação da montagem de O Grande Cerimonial, peça de Arrabal praticamente inédita nos palcos paulistas.
Próximo dos 77 anos, a serem festejados também em São Paulo, no dia 11, Fernando Arrabal nasceu em Melila, no Marrocos, mas foi criado na Espanha. Exilou-se na França, para onde migrou quando a perseguição exercida pelo regime de Franco provocou o misterioso desaparecimento de seu pai. Até hoje, Arrabal vive em Paris.
Autor de romances e poesias, o dramaturgo notabilizou-se por peças como O Arquiteto e o Imperador da Assíria (1966), Fando e Lis (1955) e Cemitério de Automóveis (1959), cuja montagem paulista de Victor Garcia, em 1968, praticamente decretou a maioridade do teatro de vanguarda no Brasil. Arrabal dirigiu também sete longas-metragens e o mais recente, A Possibilidade de Uma Ilha (2008), baseado no livro de Michel Houellebecq, ele deverá trazer debaixo do braço, em DVD, para ser exibido aqui.
Em 1962, depois de permanecer três anos no grupo surrealista, Arrabal (ao lado de Roland Topor e Alejandro Jodorowsky) criou o Movimento Pânico, a fim de conciliar o absurdo com o cruel, além de identificar a arte com a vivência e adotar a cerimônia como forma de expressão. Vivendo intensamente o teatro, foi durante o Festival de Avignon, na França, que Arrabal criou a seguinte entrevista.
P - O que o levou a escrever?
R - Criança, decidi ganhar o concurso de superdotados em 1941. Deveriam ter me congelado.
P - O senhor se adiantou em seu tempo?
R - Graças à onisciência do Pan-Deus, coloquei os princípios à frente dos fins. Se Cervantes tivesse entrado no Movimento Pânico... teria terminado sua obra La Confusa.
P - Qual sua opinião, hoje, sobre o movimento?
R - Não se pode confundir o futuro do Pânico com a história do Pânico.
P - O senhor é "acusado" de anticonformista, de provocador.
R - Acusação incompreensível. Deixo a língua de trapo para a tropa de vacas sagradas com o rabo entre as pernas.
P - Mas seu nome é associado ao "impulso irreverente".
R - O impulso (e a micção) mata e remata a emoção.
P - Do que se arrepende?
R - De tantas coisas. De não ter abraçado a matemática, como me recomendou o tribunal do meu prêmio em 1941.
P - O que é a felicidade?
R - Se existisse, haveria melhor qualidade para alcançar a generosidade sexual das valquírias? Em especial, a panicamente sádica ou a geriatricamente casta.
P - O senhor ficou surpreso com a acolhida internacional de seu livro Carta a Franco, de 1972, evidentemente proibido pelo ditador, assim como toda sua obra?
R - Pessoas desprezíveis, quando adoecem, não ficam na cama.
P - Que relação mantém com os escritores Milan Kundera e Michel Houellebecq?
R - Por muito menos, Arquimedes teria se levantado da tumba.
P - O que poderia justificar a mentira?
R - Nada. É um compromisso inútil com a ira centrípeta de si mesmo. Mal se distingue o ciclope cego do caolho.
P - Acredita realmente que o ser humano chegue inevitavelmente ao fim, à extinção das ideias e ao triunfo da violência?
R - Vivemos um tempo de esplêndida miopia. Matar por prazer parece pior que fazê-lo por um ideal.
P - Como gostaria de morrer?
R - Dormindo em plena polução noturna.
P - Em que se inspira para escrever?
R - Que um camelo passe pelo buraco de uma agulha é mais fácil que encontrá-lo depois de ter feito isso.
P - Permita-me insistir: o senhor inventou a provocação, como escreveu The Village Voice?
R - A provocação é infantil, centrípeta e aleatória.
P - Mas, então, por que o acusam de provocador?
R - Coisas mais perigosas foram ditas. E serão ditas. Os canibais diabéticos não devoram fabricantes de açúcar.
P - O fato de o regime de Franco ter proibido sua obra é, visto hoje, como uma honra?
R - Os chimpanzés com uniforme são aqueles que melhor pronunciam discursos.
P - Quando Jodorowsky, Topor e o senhor fundaram o Movimento Pânico, imaginaram o que enfrentariam?
R - Que os rinocerontes cantem, já é algo penoso, mas o insuportável é que voem.
P - Acredita-se que o senhor seja um adepto da confusão.
R - Exatamente o contrário: sou quase um fanático pela exatidão, pelo jogo de xadrez, pela mordidinha amorosa no traseiro e pela ciência.
P - Qual é seu caminho?
R - As andorinhas parisienses e os pombos brasileiros ignoram o hábito demente de sempre seguir em linha reta.
P - Acredita que Cervantes, onde estiver, orgulhou-se quando o senhor esbofeteou um apresentador da TV francesa (Emmanuel Baer) por tratar de forma desrespeitosa o autor de D. Quixote?
R - Cervantes tinha suficiente humor (e picardia) para não apreciar minha reação.
P - O senhor é realmente um anarquista?
P - Lembre-se da resposta política de Sancho Pança: "Não derrubo nem elejo rei, pois sirvo a mim, que sou meu senhor."
P - Por que sua obra atrai tantos grupos de jovens?
R - A porcentagem de jovens companhias (ou de ‘consagradas’) entre as que se interessam em representar a minha obra é misteriosamente semelhante hoje no Equador e nos seus antípodas.
P - Por que todos ficaram encantados quando o prefeito de Veneza apresentou o senhor, durante a Bienal, em junho, como "o dramaturgo vivo mais célebre do globo"?
R - Porque ninguém conhece sequer o nome de um dramaturgo. Todos ficariam igualmente encantados se eu fosse apresentado como "o melhor tigre de Bengala vivo".
P - O senhor leu a lista das cem pessoas mais influentes do mundo, publicada pelo The New York Times?
R - Entre elas, não há nenhum dramaturgo ou poeta. Melhor para nós. Podemos viver o renascimento. Ninguém vai "nos comprar". Nada temos para "vender".
P - Depois dos tempos de penitências obscurantistas, atravessamos os atalhos das luzes mistificadoras?
R - Há 59 anos que estou acostumado à hostilidade quase paranoica de certos censores.
P - E a obstinação dos inquisidores?
R - Acostumei-me à sua liderança.
P - Por que tanta fúria?
R - Se dois porcos-espinhos se cruzam, tem prioridade aquele com mais espinhos.
P - Por que O Arquiteto e o Imperador da Assíria foi representado no Royal Nacional Theatre de Londres, com o inesquecível Laurence Olivier?
R - Porque a roda da fortuna não oferece sistematicamente o triunfo aos melhores, mas aos mais conhecidos.
P - Até 1977, suas peças foram publicadas primeiro em japonês ou grego e não na sua língua materna.
R - Por ordem das autoridades. A sarna inteligente prefere os touros vermelhos.
P - O senhor afirma que é desterrado e não emigrante.
R - Pois, mais que raízes, disponho de pernas. Não sou espanhol, nem marroquino, nem francês: sou da Desterrolândia.
P - O que pensa do tempo?
R -Graças a um relógio de sol (e de pulseira), cada instante marca a hora que mais nos apetece.
P - Como vê o futuro, morando em Paris?
R - Com exceção dos adivinhos, todos podem prever o futuro.
P - A confusa complexidade atual...
R - ...faz com que os problemas mudem de natureza para que as "soluções" pareçam racionais.
P - E o sexo?
R - Só sei que nada sei (como de quase tudo).(AE)
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