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Parece uma típica banca de livros, montada ao lado de um ponto de ônibus movimentado no Campo Limpo, zona sul da capital paulista. "Aqui, meu senhor, pega esse livrinho, é só levar, vai", oferece Luan de Jesus, o atendente. "Quanto custa?", retruca o senhor, imediatamente se esquivando. Em resposta, apenas um sorriso.
Foi no ponto de ônibus na Avenida Carlos Lacerda, na frente do Centro Educacional Unificado (CEU) Campo Limpo, que Robson Padial, o Binho - figura conhecida, criador do Sarau do Binho, frequentado pela vanguarda da cultura periférica paulistana - começou, humilde, a empreitada de "levar livros aos cantos da cidade". Há duas semanas, lançou o projeto Bicicloteca: No meio do caminho tinha um livro, no qual oferece, de graça, livros a quem não tem acesso a eles. "O cidadão tem de tropeçar no livro. Assim, não larga mais", disse, orgulhoso da criação.
O nome entrega: trata-se de uma biblioteca sobre rodas, iniciativa pioneira na capital paulista - em duas cestas adaptadas na bicicleta de carga, leva cerca de 400 livros, distribuídos a quem quiser. Basta deixar nome, telefone e compromisso de que o devolverá apenas após o fim da leitura.
Nas proximidades dos dois pontos em que foram instaladas as magrelas, próximos do CEU e de uma escola pública do bairro - de 191 mil habitantes e duas bibliotecas municipais -, a novidade faz sucesso. Principalmente para quem precisa. Na casa do menino Ederson Santos, de 11 anos, simplesmente não há livros - apenas um único gibi, presente de um vizinho. "Carrego na mochila, para não perder nunca." Estudante da 5ª série, na semana passada pegou o primeiro Monteiro Lobato. "Que capa bonita!", exclamava o garoto, com olhos arregalados. "Vai ser o primeiro de muitos."
Até aqui, 600 livros foram emprestados, cerca de 40 por dia. O acervo, de 4 mil livros, foi conseguido com doações. "Tive a ideia numa ‘caminhada literária’ até Cananeia, no litoral sul do Estado. Passávamos de porta em porta, distribuindo livros, então compramos uma bicicleta para carregar", conta Binho. "Aí, deu o estalo."
Além de difundir literatura, as biciclotecas acabam suprindo lacunas. "Procurei na biblioteca da escola um livro sobre cometas, mas não tinha nada. Não imaginava encontrar aqui, antes de pegar o ônibus", disse a estudante Anizia Santos, de 18 anos, com o livro "Cometas: da Noite à Ciência nas mãos".
A bicicloteca ficará nos pontos de ônibus da Avenida Carlos Lacerda (nº 678) e da Estrada do Campo Limpo (nº 1.600) por pelo menos seis meses. "O ideal é conseguir apoio para mais bicicletas circularem", disse Binho. "Esse é o sonho, para transformar pela literatura." A conta gotas, está conseguindo: o senhor do início da história, o carpinteiro Antônio Rosa, de 43 anos, que nunca entrou em biblioteca na vida, desta vez levou o livro "Modo de Produção Feudal", de Jaime Pinky - deve ser útil para pesquisa de história, lição de casa no supletivo que cursa. (Por Vitor Hugo Brandalise - AE)
gostei
Li a reportagem sobre a Bicicloteca e fiquei embevecida, a inciativa é de uma singeleza e ao mesmo tempo de uma complexidade... Sou bibliotecária e sei que a batalha é dura para formar leitores, mas a criatividade como em todos os lugares tem que ser grande. Parabéns ao idealizador e que esta idéia possa ser pulverizada para outros tantos preocupados com o futuro de nossa gente.