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Entre a equipe de produção, o público e artistas que passaram a frequentar a Semana da Canção Brasileira, realizada em São Luiz do Paraitinga (175 quilômetros a leste da cidade de São Paulo), a conclusão foi unânime: a terceira edição do evento, que terminou no início da madrugada de 2ª feira (28) com show do Cordel do Fogo Encantado, consolidou de vez a boa ideia da curadora Suzana Salles. Não só unir arte com diversão, mas pensar e preparar o público (especialmente crianças e adolescentes) para saber ouvir música.
Contribuíram para os bons resultados as oficinas nas escolas nos anos anteriores e o trabalho de preparo dos professores da cidade durante todo o ano. "Falo para os meus alunos: ‘Vocês gostam da música que toca no rádio? Tudo bem, agora vocês vão ouvir o que não toca’", diz a professora e cantora Parê dos Santos. Não é à toa que você se surpreende com uma garotada na faixa dos 15 anos cantando inteira Brasil Pandeiro, que Assis Valente compôs em 1940, os Novos Baianos revitalizaram em 1972, revelando-a para uma nova geração, e que Paulinho Boca de Cantor relembrou em seu sensacional show no início da noite de sexta.
É curiosa a trajetória de uma canção como esta, porém não importa só manter a tradição, mas a partir disso abrir caminho para as novidades, como as que se viu no festival dos novos compositores. Marcelo Pretto (que também arrebatou o público com seu show lúdico e inventivo) e Dani Zulu, ambos do grupo de percussão corporal Barbatuques, que - em contato direto com educadores e a população, na rua, nos shows e oficinas deste ano - tiveram o retorno de trabalhos anteriores na cidade, conhecida por sua vocação musical. Não é por acaso que Suzana a escolheu para realizar essa cada vez mais importante Semana da Canção.
É por isso também que Suzana acha importante trazer de volta artistas, educadores e pensadores, como Sérgio Molina e Tata Fernandes, que estiveram nas Semanas anteriores e desta vez foram às escolas da zona rural, para criar vínculos com o público, dando continuidade aos trabalhos e tendo a oportunidade confirmar resultados. José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski já estiveram nas duas primeiras edições e serão convidados para a próxima, segundo Suzana.
Não só ela quer, mas cantoras como Leci Brandão e Jussara Silveira, formadores de opinião e o público mais interessado. Todos saíram reeducados sobre história, gêneros, correntes, transformações e sobre o fazer da canção brasileira, dos primórdios do samba ao hip-hop, esmiuçado de maneira brilhante, em quatro aulas-show repletas de momentos de intensa emoção na Capela das Mercês.
Na última aula, de título provocativo ("O Fim da Canção"), Wisnik e Nestrovski abordaram duas canções de Chico e Caetano - "Subúrbio" e "Perdeu" - que abrem, respectivamente os mais recentes álbuns, "Carioca" e "Zii e Zie". Não só foram analisadas, passo a passo, as letras das canções (duas visões particulares da periferia do Rio de Janeiro atual), mas eles concluíram, provando nos acordes do violão, que Chico e Caetano continuam compondo como nunca, criando melodias e harmonias surpreendentes, a despeito de formadores de opiniões e do público que desprezam sua produção atual.
"Estou enriquecida. Andei dizendo que a coisa para mim é antes e depois de Zé Miguel. Agora vou passar a olhar, analisar as letras das canções, até as minhas, de maneira diferente. Sou uma compositora que não escrevo música, mas com ele e Arthur consegui entender até a questão melódica da canção", disse Leci, que marcou a Semana com sua doce presença. Ela é uma dos muitos visitantes que se encantaram não apenas com Paraitinga, para onde veio pela primeira vez, e seus habitantes, mas com os eventos e efeitos da Semana da Canção. "Você ter uma aula de música dentro da igreja é uma coisa fantástica. Aqui a reza é outra", diz.
Para muitos que conviveram com ela esta semana, a carismática Leci foi "um facho de luz". "O mais importante foi o carinho com que as pessoas me trataram na rua. Fosse para dar uma flor, um bombom ou um abraço " Foi ela, aliás, que proporcionou um dos momentos mais sublimes do evento, quando, convidada por Luiz Melodia, subiu ao palco do Coreto Elpídio dos Santos para cantar sem ensaio nem nada, o samba "Zé do Caroço", que fez o público urrar e pedir bis, no sábado.
Leci quer voltar para fazer um show especial. Suzana quer convidá-la não só para cantar, mas para a aula-show sobre a história do samba carioca, da qual é uma ilustre representante. Para a próxima edição não está nada concretizado, mas os planos são muitos e interessantes. "Tenho vontade de trazer Chico Buarque para uma palestra, trazer shows de Rita Lee, Ney Matogrosso e Paulinho da Viola", exemplificou. Nestrovski sugeriu fazer um ciclo com documentários sobre a canção brasileira, gênero cinematográfico em alta nos últimos anos. Até o início do mês, a 3ª Semana da Canção esteve ameaçada de não se realizar por falta de verba. Afinal, conseguiu-se patrocínio da Cesp e, segundo Suzana, a Secretaria de Estado da Cultura abraçou a causa e deu apoio total. E o público ganhou isso tudo mais uma vez de graça, o que é muito importante.(AE)
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