Jornal Cruzeiro do Sul

31 JUL 2010 Sorocaba SP

Fundação Ubaldino do Amaral

Rádio Cruzeiro FM 92,3


Espaço do Leitor

Apoiamos


Sorocaba

BUSCA

Busca detalhada
CINEMA - [ 03/11 ]

'Vencer' mostra a Itália de Mussolini para entender país atual

Cruzeiro On Line
 
Tamanho do texto (somente para monitor): Aumentar Diminuir

É verdade que existem muitos filmes a serem descobertos nessa babilônica 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Alguns (talvez poucos) são de fato incontornáveis. Um deles é "Vencer" ("Vincere"), de Marco Bellocchio. Não seria abuso dizer que se trata de trabalho de um mestre, mesmo porque Bellocchio está longe de ser um "mestre" no sentido opressivo do termo. Isto é, aquele a quem se deve uma reverência permanente e irrestrita. Nada disso. Seus filmes expressam liberdade, leveza, experimentação em terrenos antes inexplorados.

É o caso deste trabalho que volta à época fascista para melhor, provavelmente, compreender a Itália atual. Em "Vencer", Bellocchio debruça-se sobre um episódio pouco conhecido da vida de Benito Mussolini: seu envolvimento, na juventude, com Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), com quem tem um filho, que nunca será reconhecido. Na época, Mussolini era um militante socialista sem um tostão no bolso. Ida lhe dá dinheiro para fundar um jornal. Mais tarde Benito vira casaca, abandona os socialistas para abraçar o fascismo e deixa de lado também a mulher, casando-se com outra.

O filme apresenta duas partes bem distintas. Na primeira, na fase de ascensão do fascismo, adota uma estética que dialoga com o futurismo de Marinetti, que foi simpatizante do regime apesar das ideias estéticas avançadas. Na segunda, claramente se alinha a uma linha melodramática crítica, ao evocar a via-crúcis de Ida que, forçando o reconhecimento do filho e de sua união com o Duce, acaba internada em um hospício de loucas. Nessa forma mista, Bellocchio visita terrenos novos em sua filmografia, flertando com a ópera e, portanto, com Visconti, tanto no uso da música como das cores fortes, no sentido cênico do espaço e, às vezes, na suntuosidade da linguagem.

Estabelece ainda um diálogo forte com o próprio cinema, como na sequência, inesquecível, em que o filme "A Paixão de Cristo" é projetado no teto do hospital para que os doentes, deitados, possam assisti-lo. Vendo essas sequências alguém lembrou da beleza chocante da Capela Sistina - e a referência procede. Mesmo inovando na forma, Bellocchio permanece em seu ambiente temático preferencial - o poder, a sexualidade, a psicanálise. Na maneira como o autoritarismo se reflete na repressão sexual e assim sai fortalecido. Dessa maneira, o filme é uma análise não apenas do fascismo mas daquilo que o torna possível. Não por acaso, o Duce, presente no início, sai de cena em seguida.

Ele não é mais necessário, pois trata-se de estudar sua presença virtual na alma italiana. Tudo isso, é claro, num filme histórico, que joga luzes sobre o presente. As condições são outras mas a estrutura talvez não tenha mudado tanto, como sugere a Itália de Silvio Berlusconi.

SERVIÇO:

"Vencer" ("Vincere", Itália, 128 min.). HSBC Belas Artes - Quarta-feira (04), 19h10.(AE)

Esta matéria foi acessada 205 vez(es).

Comentários

Não há comentários para essa matéria.

Comente a matéria

(Utilize este espaço somente para comentar a matéria desta página. Para outros assuntos, utilize o Espaço do Leitor localizado acima à direita)

Regras:
  • Os comentários não são publicados automaticamente;
  • É obrigatório o preenchimento de todos os campos do formulário;
  • Só serão aceitos comentários dos internautas com identificação completa, nome e sobrenome;
  • Comentários com ofensas e ataques pessoais, palavras de baixo calão ou ofensivas aos costumes e entidades, serão automaticamente excluídos;
  • Todos os comentários e questionamentos serão analisados pela redação do jornal on-line antes de uma possível publicação no site;
  • Os comentários podem ser editados;
  • A revisão dos comentários refere-se apenas ao conteúdo editorial, e não à gramática e ortografia;
  • Evite escrever em caixa-alta. Na internet, manifestar-se dessa forma é o mesmo que gritar;
  • Este espaço é destinado somente a comentários. Outros questionamentos, reclamações, etc, devem ser encaminhados à redação pelo “Espaço do Leitor”;
  • A análise e possível publicação dos comentários é feita entre 13h30 e 20h;
  • Aos sábados, domingos e feriados, devido ao esquema de plantão desta redação, os comentários podem não ser publicados. Nesse caso o leitor deve aguardar a possível publicação para o próximo dia útil;
  • Os comentários publicados no site são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião do jornal.