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Há dois anos, o Mais Cruzeiro noticiou que o sorocabano Felipe Lara conquistou, em Darmstadt, Alemanha, o primeiro lugar do Staubahc Preis, um dos mais importantes concursos de música contemporânea realizados em nível mundial. Lara participou do evento com “Translate Second String Quartet”, peça que se destacou, conforme a comissão julgadora, pelo arrojo e inovação. Dono de uma reputação e prestígio internacionais dos maiores, o compositor tem colecionado elogios da crítica especializada, inclusive no New York Times.
Sua obra desperta o interesse de formações renomadas como o Quarteto Arditti, que toca hoje, no Festival Ars Música, de Antuérpia, na Bélgica, justamente, o tema premiado. Para se ter ideia do que significa ter um trabalho incorporado ao repertório do Arditti, basta assinalar que o quarteto alcançou a incrível marca de 160 CDs gravados, além de ser apontado como o melhor conjunto de cordas do mundo. Detalhe: esta será a terceira vez que o Arditti interpreta a composição.
Lara conhece os músicos desde 2005, quando trabalhou na organização de um concerto dos doutorandos em composição da New York University. Em novo contato com a reportagem, Felipe acrescentou que tem com eles “uma relação muito boa”, por conta do vínculo profissional: “Eu admiro não apenas o quarteto como um todo, mas cada um de seus integrantes. O Irvine Arditti além de ser um dos melhores violinistas da história, é parte importantíssima da música escrita na segunda metade do séculos 20 e começo do 21. Muitas obras julgadas tecnicamente impossíveis tornaran-se parte integral do repertório por causa dele. Ele ajudou a promover grandes mestres da música desta época como Xenakis, Ferneyhough, Lachenmann, Harvey, Ligeti, e muitos outros”.
Felipe lembra que o violista do quarteto, Ralf, é brasileiro e que mereceria muito mais reconhecimento em seu país. “Não são muitos os intérpretes que chegam a este nível de perfeição na música contemporânea. O Ralf Ehlers é um fenômeno”, comenta. “Translate”, continua Lara, se propõe a encontrar o meio do caminho, onde a escrita instrumental e a eletrônica se encontram. “Técnicas electrônicas inspiram a escrita instrumental”, explicou à reportagem. A reportagem pergunta se o experimentalismo que o compositor executa, ao misturar elementos, refletiria uma tendência na música contemporânea. Felipe Lara responde que “é mais uma atitude de descobrir sonoridades, contextos, formas, e estruturas novas, e sempre questionar a tradição, a escuta, e a própria escrita musical”.
Em “Translate”, Felipe usa a própria voz registrada em bases de samples e harmonias do violão. Produziu, no entanto, uma versão acústica, sem recursos eletrônicos, que será a executada pelo Quarteto Arditti. Aos 31 anos, o ex-roqueiro Felipe Lara (sim, ele começou tocando rock!) tem alcançado projeção e reconhecimento. Sobre “Translate”, por exemplo, Anthony Tomasini, do New York Times, escreveu tratar-se de uma obra “tecnicamente formidável e amplamente variada”.
Lara tem consciência sobre o bom momento que vive. “Certamente isso tudo aumenta a responsabilidade”, diz. “Principalmente na música de vanguarda onde o público, apesar de pequeno, é muito crítico e exigente. Mas, eu procuro fazer a música que me interessa da maneira que sempre fiz, assim como um atleta, indo um pouco mais longe a cada obra, sem medo de explorar novos caminhos, mas com muita integridade.”
O sorocabano começou 2010 com uma agenda das mais movimentadas. No segundo semestre, a Filarmônica de Amsterdã, estreia uma obra inédita de sua autoria num festival de música contemporânea da Alemanha: “Esta obra para orquestra será apresentada no festival Donaueschinger Musiktage. Nela, eu continuo a explorar a tradução de sons reais à escrita musical. Ela explora, também, uma forma cíclica e questiona a repetição do material no tempo e sua percepção em vários contextos”.
Além disso, Felipe tem, ainda, um projeto para o famoso Ensemble Recherche de Freiburg, também na Alemanha. “Eles me encomendaram uma obra para celebrar os 25 anos de existência do grupo no formato de uma canção de amor. Diversos compositores do mundo todo foram convidados a interpretar o que é uma canção de amor, sem vozes, puramente instrumental. A resposta de cada um formará o conteúdo do programa”, contou. Felipe não descarta uma apresentação no Brasil. “Basta que os produtores culturais me procurem”. “O meu trabalho, acrescenta, é escrever obras novas. Agendar concertos no país seria muito bom, mas não é algo que dependa exclusivamente de mim”, reiterou.
Felipe não entende que é menos reconhecido em seu país de origem. “O Brasil tem poucos grupos instrumentais ativos que estão dispostos a tocar este tipo de música, por isso minha obra é tocada no exterior com mais frequência. Mas, mesmo no exterior, esta cena é relativamente pequena comparada à música popular ou outros gêneros mais comerciais. Eu tenho participado dos maiores eventos realizados no Brasil e sempre fui muito bem recebido.”
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