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MAIS CRUZEIRO - [ 17/07 ]

Um flerte entre palavras e imagens

Daniela Jacinto
Notícia publicada na edição de 17/07/2010 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 1 do caderno D - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
 
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Que o cinema e a literatura flertam entre si não é novidade nenhuma, mas de que modo se dá essa interação e qual é o produto final dela? A literatura no cinema consegue formar leitores ou será que colabora para que não exista mais interesse pelo livro que originou o filme, já que o público acabou conhecendo a história de um modo, digamos, mais “dinâmico”?

A reportagem buscou respostas por meio de entrevistas com um professor que defendeu tese de mestrado sobre o assunto, um crítico de cinema e uma diretora que adaptou obra literária para o cinema, que aceitaram o desafio de discorrer sobre as relações entre essas duas linguagens artísticas. São eles, respectivamente, o sorocabano João Batista Alvarenga, o gaúcho Luiz Carlos Merten, que escreve sobre cinema para o Estado de S. Paulo, e a carioca Sandra Kogut, que deu origem a “Mutum”, baseado na história “Miguilim”, de João Guimarães Rosa.

LUIZ CARLOS MERTEN

‘Faço meu filme escrevendo sobre o filme dos outros, é um exercício literário’

O jornalista e crítico de cinema Luiz Carlos Merten representa um outro lado da relação entre cinema e literatura, já que trata-se de um profissional que usa das palavras para falar sobre as imagens. Como crítico de cinema e fiel leitor de livros, ele afirma que vive entre essas duas paixões: “Faço meu filme escrevendo sobre o filme dos outros, é um exercício literário”. Durante entrevista concedida ao Mais Cruzeiro, Merten comenta sobre os filmes adaptados da literatura e que na sua opinião foram muito bem feitos, embora nem todos tenham sido fiéis à obra.

P - Para você, de que modo se dá a relação entre a literatura e o cinema?

R - O cinema tem se alimentado muito da literatura, ou pelo menos dos livros, como forma de inspiração, e inversamente o cinema também tem influenciado cada vez mais a obra de escritores que não passaram pela formação clássica, ou seja, são produtos da era da televisão, dos filmes em DVD, enfim. Mas o que o cinema busca nos livros, na maioria das vezes, é a história e isso realmente não é a literatura. Ao pensar em obras que se tornaram clássicos e mudaram a história da literatura, como os livros de James Joice e Proust, por exemplo, que proporcionam uma experiência literária, que são capazes de colocar o leitor na cabeça do personagem, o que traduz a riqueza da contribuição desses livros, na minha opinião, isso é impossível de colocar no cinema. Eu acho que os dois meios se influenciam, se irrigam, enfim, eu poderia utilizar vários verbos e expressões para tentar sugerir essa integração, mas na realidade são meios diferentes e até mesmo quando o cinema se apropria de certas histórias, trata-se de uma transcriação. Adaptar a história em si é o mais complexo, é o trabalho de tentar transformar a experiência literária numa obra audiovisual.

P - Poderia citar adaptações da literatura para o cinema que deram certo?

R - Claro, “O Senhor dos Anéis”, por exemplo é uma saga criada por um erudito especialista em literatura céltica e o cinema soube transformá-la em um grande filme. Tem também “O Estrangeiro”, adaptado da obra de Albert Camus por Luchino Visconti. É um belo filme, mas que Visconti traiu Camus traiu sim. A viúva do escritor não lhe permitiu liberdades para atualizar conceitos do livro, então ele próprio dizia que embora eventualmente traindo Camus, na realidade através da traição ele estava conseguindo ser fiel, se não ao espírito da letra, ao autor. Tem também o filme “O Processo”, baseado no livro de Kafka e que todo mundo disse que não era Kafka, mas para mim é um filme de grande riqueza. Na realidade, uma adaptação pode ou não ser fiel, o importante é que se crie um novo produto, não adianta fazer um filme capenga só porque quis ser fiel ao autor. Nesse sentido, Visconti conseguiu ser fiel ao espírito da obra e criar um filme extraordinário.

Já “O Leopardo”, também adaptado por Visconti, do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, tem três horas de duração e é uma das coisas mais suntuosas que já foram feitas. Nesse caso, ele conseguiu transcender a obra literária. Mais recente, tem “Alice” em 3D, de Tim Burton. Vejo que ele tomou liberdade em relação à obra de Lewis Carroll, aliás, tenho a impressão de que a Alice do Tim Burton é mais dele que do Carroll, o Tim Burton é um diretor que admiro, ele conseguiu fazer algo a mais com a obra, pode não ter sido a do Carrol, mas essa outra coisa que ele criou é um espetáculo visual e emotivo que eu adorei. Também incluo “Hiroshima Meu Amor”, que para mim não tem filme mais literário como esse, mesmo o roteiro tendo sido concebido para o cinema.

P - Com relação aos brasileiros, quais você considera relevantes?

R - Acho injusto elencar esse tipo de coisa no Brasil, mas temos aqui um diretor como o Nelson Pereira dos Santos, que se revelou a alma gêmea do escritor Graciliano Ramos. As duas adaptações que ele fez de Graciliano, “Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere”, são grandes filmes. Também gosto muito de “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodanzky, que é um dos filmes da retomada do cinema brasileiro e que tenho um carinho especial. O próprio Carrano se considerava muito bem retratado no filme.

P - E as piores adaptações?

R - As piores? Menina, sei lá... Raramente me preocupo com essa questão da fidelidade ou não, o que interessa é o produto, o filme, se a partir do livro o diretor criou outra coisa eu termino por ignorar completamente a obra que deu origem, mas em geral os grandes livros são os mais difíceis de adaptar pela dificuldade de transformar a experiência literária em narração de cinema. Joseph Strick, por exemplo, fez de “Ulisses”, de Joyce, um exemplo do que não se deve fazer, ele terminou não sendo fiel ao livro e não conseguiu criar um produto, um filme (“A Alucinação de Ulisses”) identificável como tal. O grande risco é esse, é você não chegar a lugar nenhum.

JOÃO ALVARENGA

“A cineliteratura pode ser um mecanismo que venha a despertar o interesse pelos livros”

Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, João Batista Alvarenga abordou recentemente as relações entre literatura e cinema em sua tese de mestrado em Comunicação e Cultura, que recebeu o seguinte título: “A Cineliteratura como Comunicação Literária e Audiovisual: Lispector e Dourado sob o olhar de Suzana Amaral”. A tese foi desenvolvida a partir da análise da transposição dos livros “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, e “Uma Vida em Segredo”, de Autran Dourado, para o cinema. O trabalho focou o emprego da sétima arte como uma alternativa para a produção literária chegar ao grande público.

Para Alvarenga, o cinema é uma forma de dar maior visibilidade às obras literárias, inclusive aquelas que estão esquecidas ou não são conhecidas pela maioria das pessoas. “Uma linguagem não anula a outra, ambas se completam. Mas a cineliteratura pode ser um mecanismo que venha a despertar o interesse pelos livros. Toda estratégia que ajude a divulgar a literatura é válida e fundamental para que se formem novos leitores”, afirma.

De acordo com Alvarenga, em termos de Hollywood, há muitos exemplos de livros que viraram filmes e que ajudaram a vender e divulgar as referidas obras. “Lógico que há o grande apelo midiático que coloca o autor em evidência. Acredito que falta, no Brasil, essa consciência de ‘indústria cultural’ que os Estados Unidos têm. Algo que garanta maior visibilidade ao livro e também à produção cinematográfica nacional”, analisa.

Ainda conforme Alvarenga, o cinema brasileiro tem apresentado um bom nível, tanto em termos imagético quanto em termos de conteúdo, mas falta um trabalho midiático que coloque essa produção junto ao grande público, inclusive em termos de quantidade de cópias. “Muito do que é produzido atualmente no Brasil não chega à maioria das salas de exibição. É preciso repensar a distribuição dessa produção, bem como garantir que o livro chegue às pessoas através de uma produção editorial mais em conta, como já ocorre nos Estados Unidos e na Europa. É preciso criar, no país, uma consciência para que o livro e o cinema caminhem juntos”, diz, acrescentando que a televisão pode ser uma grande aliada nessa tarefa. “Mas ela está desconectada dessa realidade”, aponta.

Baseado em sua pesquisa para o mestrado, Alvarenga ainda cogitou sobre a possibilidade de o cinema gerar comodismo numa sociedade viciada à ditadura da imagem. “Acredito que esse é um risco que temos de correr. Mas quem é leitor, é leitor sempre, assiste ao filme e lê a obra até mesmo para confrontar se o que viu foi fiel ao livro ou não. Penso que o cinema e a literatura se complementam e devem servir de recursos para o educador, que não pode se opor à tecnologia existente, mas fazer uso dela. Já existe um comodismo com relação à leitura, mas os professores não podem achar que isso é uma barreira intransponível. Hoje dispomos de maravilhosos instrumentos de comunicação, inclusive podemos ler uma obra pela internet, tudo isso é uma forma de garantir que a literatura continue forte”.

Fizeram parte dos estudos de Alvarenga a análise de dois filmes baseados em obras literárias, que conforme o professor, não reproduzem com fidelidade os livros porque são linguagens distintas. “Mas mesmo assim acredito que Suzana Amaral foi feliz na transposição, se não é fiel aos livros, é próxima das obras porque as respeitou e soube dar a elas a devida dimensão.”

Alvarenga ressalta que a pesquisa que realizou sobre cineliteratura é baseada no cinema que se apropria da literatura para contar uma história através da imagem. Termo que ainda é pouco empregado no Brasil. “Ao longo da pesquisa houve a constatação de que embora haja muita produção cinematográfica saída de obras literárias, ao menos no Brasil, há poucas teorias, ou quase nada sobre essas experiências. O campo teórico, no dizer da professora-doutora Helena Bonito, que fez parte tanto da qualificação quanto da defesa da tese em questão, é relativamente novo e mesmo o termo cineliteratura ainda soa como inédito entre as teorias da comunicação existentes. Assim, se sobram teorias sobre a comunicação, faltam no país abordagens sobre as experiências de livros que viraram filmes”.

SANDRA KOGUT

'Acho que ninguém faz um filme para estimular ou não a leitura de um livro'

A diretora carioca Sandra Kogut, atualmente residindo nos EUA, concedeu entrevista ao Mais Cruzeiro para falar sobre a experiência de adaptar uma obra literária para o cinema. Responsável pela concepção de “Mutum”, inspirado na história “Miguilim”, da novela “Campo Geral” (“Manuelzão e Miguilim”), de João Guimarães Rosa, Sandra acredita que seu filme dialoga com a obra do escritor, mas escancara: “acho que ninguém faz um filme para estimular ou não a leitura de um livro”.

P - Como é o trabalho de adaptação de uma obra literária para o cinema?

R - Acho que não existem regras, cada experiência é única. No caso do “Mutum”, eu disse para a Ana (Ana Luiza Martins Costa, que fez o roteiro e toda a pesquisa comigo) que queria começar o trabalho sem abrir o livro. Trabalhar primeiro com as coisas que eu lembrava, que tinham ficado marcadas em mim. Porque elas eram o motivo pelo qual eu queria fazer o filme. E isso eu precisava proteger. Só num segundo momento, fomos ao livro. Eu achava que esse livro era cinematográfico pela maneira como ele falava das sensações da infância, a percepção do mundo, tudo muito sensorial. E fomos por esse caminho, das sensações. Pra mim, aquela linguagem do Guimarães Rosa é muito sensorial, como uma música, algo que vem de dentro. É importante que o roteiro não seja descritivo, que ele tenha uma razão de ser na linguagem do cinema, que ele exista por conta própria. Senão será sempre menos que o livro, sempre aquém. Quanto tempo a gente fica com um livro? Às vezes semanas. Um filme são 90 minutos, comparativamente isso não é nada. É muito pouco tempo para contar uma história, construir personagens de verdade.

P - Na sua opinião, ‘Mutum’ foi fiel à obra de Guimarães Rosa, em que aspectos?

R - Durante toda a preparação do filme, que foi incrivelmente longa (um ano e meio) e depois durante a filmagem, mantivemos em absoluto segredo que se tratava de Guimarães Rosa. As poucas pessoas que sabiam assinaram um termo de sigilo. Eu achava isso importante porque tinha medo que as pessoas se sentissem intimidadas pelo mestre, e isso criasse uma relação solene com o trabalho. Acho que num trabalho não se pode usar luvas, é preciso estar ali completamente, e sentir que tudo é possível. Ninguém leu o roteiro, ninguém sabia para onde a história ia. Os atores (que na maioria não eram profissionais) ouviam as falas uma vez na hora de filmar, e depois as diziam com suas próprias palavras. Em dois momentos diferentes durante a filmagem aconteceu uma coisa incrível: alguém disse durante uma cena algo que era do livro, e que nem estava no roteiro; e em outro momento algo de outro livro do Guimarães Rosa. Acho que fomos muito fiéis a ele. Não em cada linha, mas na maneira de ver, de estar ali, de trabalhar com as pessoas. Acho que fizemos um filme no mesmo mundo que o dele, dialogando com o espírito da obra dele.

P - Para você, de que modo se dá a relação entre a literatura e o cinema?

R - Cada filme é um caso diferente. De novo, no caso de “Mutum”, acho que ele se aproxima da literatura pelo fato de não ser descritivo, mas de fazer a gente compartilhar sensações, sentimentos. Muita coisa está presente sem ser mostrada. Eu queria que as cenas fossem como experiências compartilhadas, e não fatos. A imagem como documento não me interessa. A literatura tem essa coisa maravilhosa de tudo ser sugerido, enquanto que o cinema, dependendo de como se faz, o trabalho pode cair num aspecto muito descritivo, da obviedade da imagem.

P - Você acredita que o cinema sirva como um estimulador da literatura no país ou as versões e adaptações da literatura para o cinema (e também para novelas e minisséries de televisão) desestimulam a leitura, já que a pessoa acabou conhecendo a obra através de uma maneira, digamos, “mais dinâmica”?

R - Esse perigo acho que não existe. Se alguém gosta muito de um filme ou de uma série de televisão, fica curioso de ir na fonte, ver como aquilo começou, de onde saiu. Mas acho que ninguém faz um filme para estimular ou não a leitura de um livro. São meios muito diferentes, independentes, que no máximo vão dialogar. Acho que a coisa mais importante para se adaptar uma obra literária é entender por que ela poderia ter existência em outro lugar além do livro. O que faz dela um filme e por que. Um livro pode ser ótimo e nem por isso parecer que daria um filme. É preciso que alguma coisa ali diga ao cineasta que existe um filme ali dentro, e ele precisa saber por que. Esse é o começo.

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