Você já deu sua nota para esta foto.

Médico: A senhora está assim porque foi picada pelo barbeiro.
Paciente (indignadíssima): Mas, ele me jurou que era médico!
A Doença de Chagas é produto da invasão - pelo homem, em busca de assen tamento ou extração de alguma riqueza - do nicho ecológico de insetos e animais maiores habitantes das matas
Essa velhíssima piada não existiria se, em 14 de abril de 1909, Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas não houvesse sacudido a comunidade científica, com a conclusão dos trabalhos sobre a doença que leva seu nome.
Ao sugar sangue de indivíduo sadio, o “barbeiro” (chupança) defeca e elimina fezes contaminadas. A vítima, ao coçar o local da picada, espalha as fezes do inseto sobre o ferimento. Dessa maneira, os tripanosomas penetram a pele, atingem a circulação sanguínea onde permanecem durante certo tempo; depois, na fase crônica, formam “ninhos” na intimidade dos tecidos (principalmente músculos do coração e do aparelho digestivo).
Barbeiro é um dos nomes de um inseto que, à noite, sai de seu esconderijo e vem sugar sangue de gente que está dormindo. Na maior parte das vezes o local da picada é o rosto, donde surgiu o apelido “barbeiro”, no Brasil, e “kissing bug” (besouro beijador) nos países de língua inglesa. Nos de língua espanhola, seu apelido é “vinchuca”. A doença que transmite foi descrita há 100 anos, mas o mais famoso doente dessa moléstia parasitária pode ter sido Charles Darwin - cujo bicentenário acabamos de comemorar - porque apresentava sintomas compatíveis com tripanossomíase americana. Em suas andanças, Darwin invadiu a selva brasileira e referiu ter sido picado por vinchucas.
A Doença de Chagas é produto da invasão - pelo homem, em busca de assentamento ou extração de alguma riqueza - do nicho ecológico de insetos e animais maiores habitantes das matas. Através dos séculos, um protozoário flagelado (Trypanozoma cruzi) vive nadando no sangue e nidificando em órgãos internos de mamíferos silvestres; consegue passar de um animal para outro, pela intermediação de insetos hemípteros que se alimentam do sangue desses mamíferos.
Carlos Chagas, quando trabalhava em laboratório improvisado num vagão de carga, estacionado em Lassance (MG), descreveu a doença (Mal de Chagas), seu agente etiológico (Trypanosoma cruzi), seus transmissores (barbeiros ou chupanças) e os reservatórios de parasitas na natureza (tatus, gambás, sagüis e outros mamíferos silvestres).
Chagas estava naquele lugar a fim de combater a malária que grassava entre trabalhadores da estrada de ferro; credenciado porque fora bem sucedido em empreitada semelhante em Itatinga (Região de Botucatu). Competente e antenado, o médico-cientista observou que a malária não era a única doença que acometia os moradores da cidade mineira. Havia muito “baticum” (batedeira), febres não explicadas pela malária e mortes súbitas em gente relativamente jovem. Também notou a presença de chupanças (Panstrongylus megistus) na maioria das casas; nas fezes dos insetos observou o microscópico flagelado. O mesmo flagelado Chagas encontrou no sangue da menina Berenice.
Hoje, no mundo, a OMS contabiliza, aproximadamente, 30 milhões de pessoas infectadas pelo Trypanozoma cruzi. Desde o advento dos modernos inseticidas de contacto (como o proscrito BHC), o rociamento* periódico das habitações infestadas por barbeiros, controlou a transmissão da doença na maior parte do país. No Estado de São Paulo, a partir dos anos 70, não mais havia barbeiros nas casas da zona rural. Os novos casos somente surgiram por transfusão sanguínea. No Brasil, entre 2006 e 2008, foram notificados 292 casos novos. Também vêm decrescendo as internações dos casos antigos. Segundo o Ministério da Saúde, foram 1.836 em 1990, 1.232 em 1994 e 966 em 1995. A novidade, nestes últimos anos, é o aparecimento da Doença de Chagas transmitida por alimentos (caldos de cana, caldo de assai) contaminados; chupanças, escondidos entre os colmos de cana ou cachos de assai, acidentalmente moídos, contaminam os sucos e podem gerar novos casos.
Na internet, corre um alerta sobre perigo da doença ser transmitida pela ingestão de feijão. O Trypanozoma cruzi não é tão resistente assim! Se não resiste à simples pasteurização da garapa ou do assai, jamais sobreviveria ao demorado cozimento que torna macio o feijão nosso de cada dia.
(*) Rociamento: aspersão, nebulização de inseticida para cobrir todas as paredes da habitação (Nota do autor).
Edgard Steffen é médico pediatra (edgard.steffen@gmail.com)
Se o cozimento do feijão elimina o Trypanozoma cruzi como as pessoas foram contaminadas por feijão?
Será que foi no acondicionamento ou falta de higiene ?
Não existe informaçao a respeito , caso tenham favor enviar resposta .
grato
NOTA DA REDAÇÃO ON-LINE
Prezado leitor:
Este espaço é destinado somente aos comentários sobre a matéria desta página. Para outros assuntos, sugestões e questionamentos, favor utilizar o "Espaço do Leitor".
Agradecemos o contato.