Jornal Cruzeiro do Sul


20/12/14 | Sorocaba SP

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| VIOLÊNCIA

Moradores de Aparecidinha estão amedrontados

Carlos Araújo
carlos.araujo@jcruzeiro.com.br



Até as décadas de 1970 e 1980, Aparecidinha era um bairro rural marcado pela tranquilidade. Nos últimos anos, crimes violentos sacudiram a rotina e os moradores passaram a conviver com o medo. Entre os marcos do bairro está o complexo de presídios formado por uma Penitenciária, um Centro de Detenção Provisória e unidades da Fundação Casa (antiga Febem). Mais de 20 anos separam o período em que o bairro era pacato do clima atual de insegurança. Esse tempo coincide com o recebimento das unidades prisionais. E é justamente a possível vinculação entre presídios e aumento dos índices de violência que levou o administrador de empresas Claudio Cutri Robles a iniciar uma campanha contra a construção de mais um presídio próximo desta região da cidade de Sorocaba.

O governo do Estado de São Paulo planeja construir no bairro Cristal, no município de Mairinque, um presídio com capacidade para 760 vagas, com 20 mil metros quadrados, numa área de 89 mil metros quadrados. O problema, segundo Robles, é que a unidade estará mais próxima de Sorocaba (7 quilômetros) do que do centro de Mairinque (20 quilômetros). Ele está preocupado com o agravamento das condições de degradação social e ambiental representadas pelo impacto de mais um presídio que, embora instalado em Mairinque, tem proximidade com Sorocaba. Seu objetivo é convencer o prefeito de Mairinque, Dennys Veneri, a mudar o local para uma região do município vizinho que esteja distante da divisa com Sorocaba.

Enquanto isso, em Aparecidinha, ocorreram dois homicídios na semana passada: um, na rua Otaviano Felix Pereira, a 50 metros do antigo Santuário, que vitimou o pedreiro Raimundo Alves da Silva, de 29 anos; o outro, na rua Joaquim Machado, deixando como vítima o encarregado de obras Jefferson Muniz Cerqueira, de 30 anos.

O retrospecto de violência na região de Aparecidinha também é pesado. Há dois anos, um triplo homicídio (dois rapazes e uma moça) assustou os moradores: o local era um lava-rápido em frente ao antigo Santuário do bairro. Em 23 de maio de 2010, um adolescente de 17 anos foi assassinado com quatro tiros no bairro vizinho do Jardim Josane. Duas semanas antes, na Vila Amato (outro bairro próximo), havia ocorrido outro assassinato.

Por conta desse clima, a mudança de comportamento dos moradores é total. Antigamente havia o hábito do convívio de vizinhos na frente das casas, crianças brincando na rua, e isso entrava pela noite. Hoje, às 19h, as ruas ficam desertas. Quem pode se tranca em casa e só sai em caso de extrema necessidade, quando há problemas de saúde ou para buscar filhos na escola quando eles se atrasam. Se tiros são ouvidos à noite lá fora, na rua, ninguém tem coragem de sair para saber o que aconteceu. Só o dia seguinte poderá trazer as notícias do encontro de um corpo.

Presídios X violência

Os moradores falam do clima de violência pedindo para não serem identificados, um indicador do medo que os domina. Fotos, só na contraluz. Na hora de vincular as mortes à existência dos presídios no bairro, eles se dividem.

O aposentado L. B., de 64 anos, morador do Jardim Josane, não tem dúvida sobre a relação entre presídios e violência: "O que tem no presídio? Bandido, ladrão, estuprador. Se tiver uma fuga lá, estamos ferrados. Os bandidos não têm o que perder, nós é que temos." Uma vizinha dele, dona de casa, discorda: "Nada a ver uma coisa com a outra." A comerciária D. L., de 25 anos, compartilha da opinião da dona de casa, e compara: "Há bairros de Sorocaba que são mais perigosos do que aqui (Aparecidinha) e não têm presídios. O Campolim é zona sul e lá tem bandido também." N. B., aos 84 anos, também morador do Jardim Josane, acrescenta que os presídios, "quanto mais retirados da população, melhor".

Outro mundo

O tenente coronel da reserva da Polícia Militar, Osny José Rodrigues da Silva, não tem dúvida sobre a vinculação entre presídio e violência no seu entorno. Com a experiência de quem foi secretário de Segurança Pública de Hortolândia, municípios da região de Campinas que é referência no problema de presídios, Osny lembra que a população carcerária de uma unidade prisional atrai suas famílias que, muitas vezes, ocupam regiões de forma irregular e isso traz complicações nas áreas sociais e de demandas de serviços públicos. "É um outro mundo, isso acontece na Aparecidinha, e não tem planejamento", ele descreve.

Em carta aberta divulgada no início da semana passada na qual alerta para esse problema, Claudio Cutri Robles escreveu que a proximidade do novo presídio de Mairinque com a região de Aparecidinha e Mato Dentro "gerará um caos social com ônus para Sorocaba". Argumentou que "milhares de pessoas se acomodarão em áreas sem estrutura alguma".

Governo e Prefeitura

Solicitada pela reportagem a dar informações sobre o perfil do presídio programado para Mairinque e a comentar a relação entre unidade prisional e violência, a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) do governo estadual respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa: "A SAP não está se manifestando sobre o assunto no momento." O prefeito Dennys Veneri não foi localizado porque viajou a descanso, segundo informaram funcionários da Prefeitura, e deve retornar esta semana.

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