Jornal Cruzeiro do Sul


25/10/14 | Sorocaba SP

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Congressos e conferências: para que servem afinal?

No contexto do mundo atual, onde as questões relativas à sustentabilidade das atividades humanas, dentre elas o turismo, constituem pauta permanente, cabe ressaltar que o debate entre os segmentos de mercado e a produção de conhecimento na academia se configura numa necessidade premente.

 

Um bom exemplo da aproximação entre esses segmentos é a realização periódica de Congressos e Conferências, alguns já bem tradicionais como o Congresso Latino Americano de Investigação Turística (CLAIT) e o Encontro Nacional de Turismo com Base Local (ENTBL). Coincidentemente, ambos os eventos, na sua 5ª e 12ª edições, respectivamente, acontecem este ano na mesma cidade: São Paulo.

 

Segundo os organizadores do 5º CLAIT (03 a 05 de setembro de 2012), "a atual conjuntura mundial está provocando transformações no turismo, fato que vem sendo estudado por pesquisadores de todo o mundo. A produção científica latino americana na área vem se consolidando e já apresenta consistência para a construção de um referencial próprio". Alguns dos temas em debate serão o "Turismo e o Meio Ambiente" e a "Cultura e o Turismo", numa demonstração que os impactos socioambientais da atividade estão pautando boa parte das pesquisas na área.

 

Já o XII ENTBL (06 a 09 de novembro de 2012) busca "contribuir com a ampliação das reflexões sobre o Turismo, este importante e complexo fenômeno de relevantes repercussões nas esferas social, econômica, ecológica, política e cultural, portanto, eminentemente espacial". O tema central desta edição será "o Turismo com Base Comunitária e a Inclusão Social".

 

Outros eventos acadêmicos que obviamente merecem nota, mesmo não estando focado no turismo, mas com espaços onde a temática será discutida são o VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental (Salvador, BA, de 28 a 31 de março de 2012), e a Conferência Rio+20 (Rio de Janeiro, RJ, de 20 a 22 de junho de 2012, com a realização das 3 Cúpulas: Conferência internacional sobre desenvolvimento sustentável, Stakeholder Forum e Cúpula dos Povos).

 

O que tanto se debaterá nesses eventos? Uma possível resposta: a mobilização da sociedade civil e da comunidade acadêmica para organização de movimentos de maior amplitude de alcance (grandes massas e meios de comunicação) carece ainda de um embasamento concreto, na elaboração e divulgação de propostas que revejam a interpretação e, principalmente, a aplicação do conceito de "desenvolvimento sustentável".

 

A maior contribuição do Brasil seria o de responder e agir respeitosamente no que tange os compromissos acordados nestas conferências, demonstrando assim que é um país de vanguarda, que encara a sustentabilidade com objetividade e pragmatismo, buscando a antecipação dos problemas e sendo pró-ativo na formulação de soluções.

 

No setor do turismo, por exemplo, deveríamos aumentar e introduzir no mercado, através de incentivos diversos, projetos e pesquisas que aproveitem as riquezas que o Brasil possui em abundância: biodiversidade e recursos naturais. As propostas para proteção dessa biodiversidade devem conter investimento em pesquisa para diminuição das perdas da riqueza biológica, com participação das comunidades, capacitação, empoderamento social, geração de energia local e turismo de base comunitária.

 

O Brasil já é referência na utilização de energias renováveis e em políticas públicas de inclusão social e erradicação da miséria, que são alguns dos pressupostos para se caminhar para a chamada "economia verde". Desta forma, poderia exercer a liderança do processo de construção de uma nova agenda internacional para o desenvolvimento sustentável.

 

Para uma efetiva contribuição, nosso país deve elevar as discussões inerentes ao enfrentamento dos problemas socioambientais, de modo a liderar propostas sólidas que visem a melhoria da qualidade da ambiental em níveis regionais e locais, sobretudo, através da implantação de instrumentos econômicos de proteção ambiental e ganho social justo. O turismo pode ser uma importante ferramenta na implementação destas metas.

 

Um turismo verdadeiramente sustentável deve, através de políticas públicas e/ou tratados, estar a serviço da avaliação e do fomento das potencialidades e diversidades dos ambientes, das nações e dos povos, sempre focados no planejamento do crescimento com igualdade, e na "ambientalização" das agendas políticas dos locais onde ocorre. Tal ação não deverá somente estar pautada na viabilidade econômica imediatista, mas, principalmente, na relevância da proteção dos recursos ambientais para o desenvolvimento da pessoa humana, através da revisão e do resgate de seus valores.

 

A contribuição do Brasil, para a criação de uma nova agenda, portanto, será a discussão da real aplicabilidade, primeiramente das agendas locais do nosso país, pontuando as dificuldades e as melhorias alcançadas e propondo a superação dos pontos fracos. A Agenda 21 nacional brasileira buscou a união entre o sistema econômico e a preservação ambiental, mas encontrou grandes dificuldades em promover o processo participativo.

 

O Brasil, colocado na posição de emergente, em vista dos países "desenvolvidos", é uma grande fonte de recursos naturais e espaço físico. Sabe-se que um dos grandes motivos da emergência econômica nacional é resultante da crescente demanda de exportação de matéria prima. Nesse sentido, sabendo do seu poder perante a produção mundial, o Brasil deveria a partir de medidas internas, visando contribuir para a redução dos impactos sobre o ambiente, mediar essa lógica desenvolvimentista, sabendo não só de suas metas econômicas, mas também de sua responsabilidade no processo, propondo assim um desenvolvimento para si próprio que atenda as suas necessidades, não sendo apenas um estoque para os países desenvolvidos.

 

Um país com uma maior gestão das suas áreas naturais, preservando-as para inclusive manter sua capacidade exportadora e de desenvolvimento econômico, perpetuará seu papel no cenário produtivo mundial, assim como exercerá seu papel de soberano consciente sobre suas áreas. O país também deveria aproveitar a oportunidade para fomentar o discurso sobre o consumo consciente, tendo como objetivo congregar a lógica de compra e venda e as iminentes necessidades de redução de consumo, redução de resíduos e redução de extrativismo.

 

Neste contexto, o impacto de todos esses congressos e conferências será diretamente proporcional a sua capacidade de escuta, apoio e apreensão das demandas da sociedade civil organizada em seus objetivos e planos de futuro. Será necessário que o debate se amplie para outros fóruns e tenha fôlego para discussões futuras. É necessário refletir e planejar os pós-eventos e em mecanismos de monitoramento e avaliação das ações propostas.

 

Se atentarmos, nesse momento, para o cenário mundial, no qual muitos países já se encontram na beira de colapso econômico, devido aos seus sistemas predatórios de produção, veremos que nós ainda nos encontramos em condições de nos estruturarmos e sermos racionais em nossos meios de produção.

 

Independente de como estiver outros países, o Brasil precisa enxergar a nova motivação para investimento no mercado de energias renováveis, de ações socioambientais sustentáveis, que não correspondem à necessidade de atender ao crescimento marginal da demanda, mas ao estímulo para atração de investimentos e consequentemente a geração de emprego e renda. Incentivar a predisposição dos consumidores em realizar mudanças qualitativas em seu comportamento permitiria que o mercado se voltasse mais à economia verde. O sucesso da renovação do compromisso se dará com o atendimento dos objetivos e metas delineados pelas conferências que em breve se realizarão, ou mesmo por ações inovadoras do Governo Brasileiro.

 

Transformando o antigo em moderno, os debates entre a academia e o mercado deverão superar o compromisso com o desenvolvimento sustentável e atualizar-se de modo inovador para promover, fomentar e concretizar as sociedades sustentáveis, visto que desenvolvimento e sustentabilidade não combinam em essência. O compromisso se dará na medida em que tivermos mais envolvimento e cobranças do poder público e as ações passem a substituir o discurso.

 

O multilateralismo poderá ser fortalecido se os resultados dessas conferências rumarem para a determinação de novos padrões de sustentabilidade a serem estabelecidos de maneira justa, levando em consideração a realidade socioeconômica, ambiental e tecnológica de cada país, seja para a exploração, seja para a proteção. Isso de fato determinaria um cenário de outras relações, que não aquelas que giram apenas em torno do poderio econômico, mas sim, aquelas que buscam o desenvolvimento social pautado no entendimento, pertencimento e conservação do meio ambiente.

 

Devemos abandonar o modelo produtivista-consumista e a sociedade deve se mobilizar contra o mercantilismo predominante que leva à exploração, miséria e destruição ambiental. O novo modelo de produção e consumo deve atender às necessidades e sonhos das pessoas e não aos interesses do capital; deve promover a distribuição de renda e riqueza; promover o uso racional dos recursos naturais; respeito à biodiversidade; promover o caminho para a superação do modo de produção capitalista que é predatório por natureza. Os papeis do Estado e da sociedade são fundamentais, pois se o Estado pode legislar, regular a economia e promover a educação ambiental, a sociedade pode se mobilizar na defesa dos direitos sociais e ambientais num processo de se estabelecer novos padrões de consumo.

 

Esses novos padrões envolvem a simplificação, ou seja, o sentido contrário da evolução tecnológica e disputa voraz por mercados, que exploram materiais e processos de geração de produtos de consumo cada vez mais complexos e "desnecessários".

 

Um dos pressupostos da economia verde é a equidade social, sendo assim, a inclusão social e distribuição de renda devem ser fomentadas. Porém o que deve ser distribuído não é o atual padrão de consumo, mas o consumo que atenda às necessidades reais das pessoas e não as necessidades induzidas, pois devemos preservar o meio ambiente e os recursos naturais garantindo esses mesmos recursos às futuras gerações.

 

O turismo sustentável somente poderá ser inclusivo se não se tornar "mercadológico", ou seja, se de fato garantir oportunidades para a descentralização, para a criação de oportunidades de negócios que garantam a sustentabilidade com ganhos sociais de grande alcance e que se prestem a proteção do meio ambiente. Deve, portanto, contemplar os princípios de equidade entre gerações, considerando uma economia socialmente sustentável, e não apenas economicamente possível e ambientalmente vantajosa.

 

O diálogo para a efetivação de ações parte do princípio, de projetos com horizonte de curto, médio e longo prazos colocados à mesa, no âmbito global e de convergência com os planos nacionais. Desenvolvimento significa unir todas as instâncias, deliberativas ou não, pelo bem comum da humanidade e da conservação da vida no planeta.

 

As conferências nacionais e internacionais devem, afinal, ter um caráter mais pragmático na tomada de decisão, e o comprometimento com acordos, convenções e tratados devem ser viabilizados de fato. Além disso, deve-se criar uma comissão de governança para alimentar e incentivar a implementação dos compromissos acordados. Só assim cumprirão seu papel e promoverão o real debate entre a academia e o "resto da sociedade".

 

Zysman Neiman é professor do Centro de Ciências e Tecnologias para Sustentabilidade, Universidade Federal de São Carlos, e pesquisador dos Programas de Mestrado em Sustentabilidade na Gestão Ambiental (Prosgam) e de Mestrado em Educação, ambos na UFSCar - câmpus Sorocaba. Texto elaborado com a colaboração de alunos do Prosgam

 

Notícia publicada na edição de 13/03/12 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 007 do caderno Turismo - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

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