Jornal Cruzeiro do Sul


18/12/14 | Sorocaba SP

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| HISTÓRIA ESQUECIDA

Prédio da estação está em estado de abandono

Há 7 anos, parte do revestimento de gesso no teto foi abaixo por causa de uma infiltração
Samira Galli
samira.galli@jcruzeiro.com.br

Quem passa pela avenida Afonso Vergueiro pode notar o abandono do prédio principal da Estação Ferroviária de Sorocaba, patrimônio histórico que se encontra em estado de deterioração há décadas. Para quem viveu no tempo em que a ferrovia estava ativa, a sensação é de que parte da própria história está esquecida. "É mais que a sensação de história de uma cidade deixada de lado, é parte da tua própria vida abandonada", lamenta o pesquisador José Rubens Incao, filho, neto e sobrinho de ferroviário. Desde os anos 90 é discutida e anunciada a recuperação do prédio, que um dia abrigou bilheterias, salas para senhoras, escolas de ferroviários e escritórios. Há 7 anos, parte do revestimento de gesso no teto foi abaixo por causa de uma infiltração causada pelo desabamento do telhado. Até agora, só o telhado foi consertado.

A Secretaria da Cultura e Lazer (Secult) informa que está providenciando o orçamento para recuperação do piso do prédio principal para, em seguida, fazer a licitação da obra de recuperação do prédio. Portanto, ainda não há valores a serem divulgados, até porque isso interferiria no processo licitatório. E, além de não divulgar previsões para o cronograma de obras, não explicou porque, desde 2005, não recuperou o prédio da estação. Também não explicou que destino pretende dar para o prédio histórico. 

Urgências
 
Além do gesso do teto e do telhado, entre os principais problemas causados pela deterioração da Estação Ferroviária, a historiadora e conselheira do Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico, Turístico e Paisagístico de Sorocaba (CMDP), Sônia Nanci Paes, lista o madeiramento e a presença de pombas no local. "Elas fazem ninho e os dejetos são extremamente ácidos, o que corrói tudo, inclusive o gesso."

A preocupação em relação ao madeiramento é por causa de cupins, que só não tomaram as partes que ainda possuem a madeira original - mais forte e alheia à praga. "Com as transformações pelas quais o prédio foi passando, recebeu um tipo de madeira que o cupim adora. Esse é um problema muito sério nos prédios históricos da cidade", comenta. O agravante, é que toda a estrutura do meio (piso do andar de cima e teto do andar de baixo) é feita inteira de madeira, e a situação pode se complicar ainda mais se não for resolvida.

Até hoje, a maior descaracterização do prédio ocorreu nos telhados, alterados na sua arquitetura e no material utilizado. A telha original, a paulista, foi substituída por telhas onduladas de fibra e cimento, conhecida como eternit. "A telha escorrega, chove, entra umidade e acelera o processo de deterioração. Os adornos de gesso do núcleo central sofreram por causa disso", descreve Sônia.

A recuperação dos telhados não é impossível, admite Sônia, mas é preciso reformular o telhado ao projeto com as telhas iguais às originais. "Quando isso for feito, vai diminuir em 80% o problema de infiltração", observa. Já o restauro do acabamento em gesso é ainda mais complicado, porque, além de fazer o molde com os detalhes, recolocar a placa no local é complicado por ser arredondada e ficar solta, sem contato com a parede.

Sônia adianta que a Prefeitura está tomando providências em relação ao problemas mais urgentes, mas não se trata de uma reforma, uma intervenção radical, nem um restauro completo, mas um trabalho de manutenção para frear o processo de deterioração do prédio. 

Valores
 
Sônia explica que um dos principais empecilhos para a restauração completa do prédio é o custo. "Há cinco anos, foi feito o orçamento de restauro no valor de R$ 3 milhões. Hoje deve ser bem mais", lamenta. Além disso, a Prefeitura perdeu duas emendas parlamentares do Ministério do Turismo - no valor de R$ 150 mil cada - há 7 anos devido ao processo de fiscalização da Caixa Econômica Federal. "Mesmo a emenda vindo da Câmara dos Deputados, o município tem que arcar com o projeto, planilha de custos e até com exigências da Caixa", conta Sônia. Em uma delas, a Caixa exigia que fosse construído um elevador dentro da estação, para aí liberar a verba. "E isso nem constava na planilha", explica.
 
Furtos e vandalismo
 
A estação também já foi alvo de furtos - principalmente das peças de bronze - e vandalismo. Por causa da situação, o Ministério Público anunciou que vai desarquivar o Termo de Ajustamento de Contas (TAC), instaurado em maio de 2005, com a intenção de celebrar um convênio que possibilite investimentos na recuperação do patrimônio, conforme garantiu o promotor Jorge Alberto Oliveira Marum.

Inaugurada em 1875, a construção foi tombada em 2003 pelo CMDP. Considerado um dos principais patrimônios arquitetônicos de Sorocaba, o prédio da estação é o primeiro edifício de tijolos do município. Até então, os demais prédios que existiram na cidade eram todos feitos de terra solada, ou taipa de pilão. O prédio foi projetado pelo engenheiro Clemente Novelleto Spetzler, natural da Alemanha, e construído pelo sorocabano Teotônio José de Araújo e por Francisco das Chagas do Amaral Fantoura, que veio de São Paulo exclusivamente para trabalhar na obra.

Em 1990, o prédio passou por uma reforma geral na estrutura e fachada, que ampliou o conjunto arquitetônico e mudou inclusive o estilo - até então neoclássico - para uma arquitetura eclética, com elementos gregos e romanos. O projeto foi do arquiteto Ramos de Azevedo, conforme explica Incao. "Foi então que ficou com a cara que tem hoje, de "bolo de noiva"." 

Responsabilidade
 
Com a extinção da Rede Ferroviária Federal, que detinha a posse do prédio da Estação Ferroviária de Sorocaba, o imóvel foi passado à responsabilidade do Patrimônio da União (SPU), órgão ligado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Apesar de pertencer à União, desde 2005 o prédio está sob "tutela" do município devido ao convênio firmado com a Rede Ferroviária Federal S/A, que autoriza o Poder Executivo a utilizar e ocupar o complexo da Estação Ferroviária de Sorocaba, articulando ações de preservação e educativas que perpetuem a memória histórica e cultural. Dessa forma, desde a transferência, coube à municipalidade, entre outras funções, executar as obras indispensáveis à ocupação e conservação do imóvel. 

Destinação
 
Para Incao, além de restaurar, é necessário dar a destinação correta ao patrimônio. Na opinião dele, a estação deveria voltar a ser utilizada para o que foi construída: servir a ferrovia. Ele defende que sejam retomados os trens de passageiros à cidade. "É uma alternativa a se pensar, já que as cidades hoje estão inchadas de carros. E, a partir do momento que houver circulação de trens e de pessoas, o prédio voltará a ter vida. São como pessoas, se o sangue parar de circular, morrem. O prédio fechado é natural que se acabe", comenta.

Apresentado à estação pelo pai, quando ainda era criança, Incao defende a preservação do prédio para a manutenção da história dos sorocabanos. "A questão de patrimônio não fica restrita ao prédio. Tem a ver com as pessoas, com os sentimentos. O maior patrimônio que cidade tem hoje é o povo sorocabano. Se alguns pontos desta história não forem preservados, nós vamos perder os referenciais como pessoa. O prédio da estação é um dos marcos de identidade do povo sorocabano. Sorocaba só está perdendo com isso tudo parado, funcionando só como corredor de cargas de uma única empresa", finaliza.

Em matéria publicada na edição de ontem do Cruzeiro do Sul, a Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos revelou que o estudo do trem rápido entre Sorocaba e São Paulo prevê a utilização das estações localizadas no Centro e no bairro de Brigadeiro Tobias. Ambas seriam revitalizadas. A intenção inicial é de que a estação de Brigadeiro atenda os passageiros de cidades da região, enquanto que o prédio histórico do Centro, os sorocabanos e seus visitantes. Em São Paulo, os trens devem chegar e partir da estação de Pinheiros. A previsão é de que a linha comece a operar em 2018, mas há intenção do Estado em antecipar o prazo para 2016.

Ferrovia tem forte ligação com Sorocaba
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A história da Estrada de Ferro está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento da cidade, assim como o tropeirismo, explica o pesquisador José Rubens Incao. Na segunda metade do século 19, por causa da industrialização têxtil, o lombo do muar precisou ser substituído pela novidade tecnológica da época e o ciclo do tropeirismo deu lugar ao vapor dos trens. Essa substituição se iniciou com a chegada a Sorocaba de Luiz Matheus Maylasky, húngaro vindo para o Brasil em 1865 e residente em São Paulo. Em meio à safra algodoeira, resolveu se mudar para a cidade, oferecendo-se para auxiliar os arrieiros e peões das tropas de muares que se preparavam para aqui chegar. Passando a residir em Sorocaba, Maylasky liderou um grupo de sorocabanos, fundando a Estrada de Ferro Sorocabana em 2 de fevereiro de 1870. As obras de construção da nova estrada de ferro foram iniciadas em 1872. Depois de três anos, foi inaugurado oficialmente em 10 de julho de 1875 o trecho São Paulo/Sorocaba, com 108 quilômetros de extensão.

Ao longo de mais de cem anos, a Companhia Sorocaba passou por diversas fases, mudanças e transformações. O parque ferroviário sorocabano chegou a ser um dos maiores da América Latina, mas sentiu uma forte desvalorização por volta dos anos 60 e 70, em detrimento do impulso dado em nível nacional ao transporte rodoviário. Em 1971, o governo paulista decidiu unificar todas as empresas detentoras das linhas que formavam a malha ferroviária do Estado. Assim foi criada a Ferrovias Paulista SA (Fepasa), que culminou na extinção da Estrada de Ferro Sorocabana e de toda uma identidade social e cultural. Atualmente, os prédios anexos - antigos depósitos e área de bagagem - estão em reformas, onde serão instaladas a Casa do Turista e a Oficina do projeto Mais Cultura em um deles, e o Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (Macs) em outro. "A ferrovia trouxe todo esse desenvolvimento, além de trazer também os imigrantes, desenvolvimento urbano, meio de transporte de pessoas e de cargas. Não tem como tirar a ferrovia da história de Sorocaba e simplesmente ignorá-la. De jeito nenhum", destaca Sônia Nanci Paes.
Notícia publicada na edição de 19/05/12 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 12 do caderno A - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

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