Jornal Cruzeiro do Sul


01/09/14 | Sorocaba SP

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| HISTÓRIA

Iracema Cavalcante: 70 anos de vida; 50 de circo

Um dos grandes nomes do cirtco-teatro relembra sua trajetória artística e fala da amoção de subir ao palco, que jamais esmorece

 

 

Maíra Fernandes
maira.fernandes@jcruzeiro.com.br

 

Quatorze cruzeiros a mais no salário foram importantes para que a sorocabana Iracema Pires Cavalcante aceitasse o cargo de bilheteira no circo Guaraciaba, no década de 1960. Ou era isso, ou continuar como empregada doméstica, um dos poucos ofícios para mulheres sem instrução escolar concluída. Mas decisivo mesmo foi a vivência anterior que teve com artistas, tanto como espectadora ou se arriscando no teatro amador. "Não sou de família circense, mas sempre gostava de estar perto de artistas", conta.

 

O gosto da jovem pelas artes foi despertado pelo tio, que era chegado nas cantorias e fazia reuniões em casa, e azeitado depois pelo locutor Nhô Juca, que após seu programa Domingo de festa, na Rádio Cacique, realizava um teatro no palco do local, que era acompanhado ao vivo pelas pessoas e ainda transmitido pela rádio. "Eu participava desse teatrinho, tinha quase 20 anos, aí o Nhô Juca gostou e me convidou para trabalhar fazendo shows", fala ela lembrando que não demorou para que conhecesse os artistas do circo Guaraciaba, que também tinham um programa na mesma rádio. Isso aproximou Iracema do universo circense.

 

"Conheci o palhaço Pirolito (Antônio Malhone, proprietário do circo Guaraciaba), e logo o bilheteiro do circo saiu e ele me convidou para ir trabalhar lá. Naquele tempo, mulher só trabalhava como empregada doméstica e eu ganhava seis cruzeiros por mês fazendo isso. Na bilheteria eu trabalharia por 2 horas e ganharia 20 cruzeiros, então eu fui", relata Iracema sobre o "sim" que marcaria sua vida e seu nome na história do circo-teatro no Brasil.

 

Na bilheteria, não custou para que se embrenhasse em outras áreas. Começou a ensaiar com o conjunto Guaraciaba, a subir no palco para cantar, até que um dia, ao ver Antônio Malhone aguardando uma atriz para o ensaio da peça Ébrio, não se conteve. "Pedi para ele me dar o papel da Salomé do Ébrio. Ele deu o papel na minha mão: tá leia! E disse: Já leu? Enfronhou o papel? Então vá assistir e ver o que ela faz", recorda Iracema, com uma memória invejável, prestes a completar 70 anos de vida, no próximo mês, e 50 nas artes circenses. "Comecei em 1964, cantando, fazendo ponta..."

 

Do circo mesmo, como gosta de frisar, ela acabou se tornando membro efetivo a partir de 1969, quando casou com o artista Vioblaque Cavalcante, irmão de Jaime Cavalcanti, marido de Guaraciaba. Entrou para o circo e para a família, lembra. "Eles eram tradicionais de circo."

 

De lá até a década de 1980, são incontáveis as cidades e os personagens que Iracema conheceu e representou embaixo da lona, sempre aliando à interpretação o gosto e o dom musical, pelo qual nutre um carinho especial.

 

Na época em que uma temporada de circo em uma praça poderia durar de seis meses a um ano, percorreu outros circos também e só parou em 1986, por conta do estudos dos filhos. "Paramos em Votorantim, mas acabamos vindo para Salto de Pirapora."

 

 

Circo: uma escola

 

 

A nada fácil vida no circo, conta, mais fortaleceu do que traumatizou. "O circo sempre foi muito discriminado. Mulher de circo não prestava e homem era vagabundo. Sofremos muita discriminação. Éramos convidados a nos retirar de clubes, não éramos atendidos nas lojas."

 

A lembrança dos perrengues, principalmente na questão financeira, só é aliviada pela lembrança das conquistas: os amigos, a arte, o palco e a criação dos filhos. "O circo é uma escola, uma família. Se todos pudessem educar os filhos dentro do circo, não existiriam marginais."

 

Mas se a noção da importância da vivência no circo na sua emancipação pessoal e na sua história vem de longos anos, a dimensão da importância do trabalho que realizaram - e ainda realizam - foi uma descoberta mais recente e um divisor de águas em uma época da vida em que veteranos do circo-teatro como ela, Hudi e Ediméia Rocha e Guaraciaba Malhone, já se encontravam longe dos palcos.

 

Depois que o circo-teatro foi engolido pela década de 1980 e as lonas baixadas, Iracema foi dar conta de concluir sua formação escolar, passou em um concurso público para escriturária em uma escola estadual e lá se aposentou. Só abandonou essa condição nos anos 2000, quando ela e os outros atores circenses vindos do circo-teatro foram içados, novamente, à condição de protagonistas de um momento importante da história cultural do país. "Fomos, uma vez, à TV Metropolitana, para falar do nosso trabalho. Era a Semana do Circo e então conhecemos o Zé Rubens (Incao). Nossa, eu amo aquele menino! Conversamos e então resolvemos dar continuidade ao resgate do circo-teatro na Biblioteca Infantil, onde Zé é o diretor", explica.

 

 

Resgate histórico e emocional

 

 

Essa ação desencadeou em Sorocaba e região várias ações de resgate à memória do circo-teatro e dos seus representantes, que moram na região. Grupos de teatro como o Manto trabalharam com os veteranos, e uma lona foi (e permanece) erguida nos fundos da Biblioteca Infantil, onde anualmente os veteranos se misturam aos mais jovens e apresentam espetáculos de lotação impressionante, todos os anos. "Eu não imaginava que havia tanto interesse. Descobrimos como fomos e somos importantes. E como as pessoas nos procuram, têm sede de saber. Eles nos sugam, querem saber tudo, para espetáculos, para trabalhos universitários... Nós não sabíamos que tínhamos esse valor."

 

Para Iracema, o interesse, além do legado histórico, é também pela diferença da atuação dos artistas no circo-teatro, se comparado com o teatro de hoje. "É diferente, pois da mesma forma que estou aqui conversando com você, nós fazemos no palco. Já no teatro é diferente: o artista está no palco e o público lá embaixo só assiste. Também tem a questão de, mesmo em um texto de drama, ter uma parte cômica no meio."

 

Outra característica apontada pela artista é que as interpretações eram muito orgânicas, e não se utilizavam de técnicas vocais, de postura, ou se embasavam em algum estudioso do teatro. "Nós estávamos lavando roupa, dava a hora, saíamos e já estávamos no palco. Era natural. Você se apronta e você some de você. Podia estar morrendo, era só mudar o figurino e tudo ficava bem", discorre a atriz sobre a naturalidade da arte em seu dia a dia.

 

Mas é bom frisar que isso não acontecia no passado. Desde que retomaram as atividades - o último espetáculo foi A canção de Bernadette -, Iracema garante que a emoção é a mesma de quando ela pisou no palco com seu primeiro papel na peça Ébrio. "É tão orgânico como dizer: vem cá, põe a panela no fogo! Mas é a mesma emoção de antes", garante ela, que não tem ritual algum para subir ao palco. "Meu ritual é trabalhar."

 

A diferença quando sobe ao palco, hoje em dia, é a tranquilidade de que muito já foi conquistado. "Hoje nós vemos o público, antes a gente trabalhava pensando também no dinheiro, como outro qualquer."

 

E ver o público, no caso dela, é se espantar e espalhar a quem queira ouvir que, na apresentação do espetáculo Escrava Isaura, por exemplo,cerca de 60 pessoas voltaram para a última apresentação e uma única pessoa assistiu à peça 10 vezes. "Nosso objetivo é passar para vocês algo que não conheceram", conclui a atriz que, não bastasse o legado nos palcos, ainda publicou um livro pela Lei de Incentivo à Cultura em 2011 (Linc), A vida maravilhosa nos circos-teatros, onde divide com a leitor também um pouco da história de mais de cinco décadas dedicadas a essa arte.

 

Notícia publicada na edição de 10/01/14 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 001 do caderno C - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

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